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SOCIEDADES INICIATICAS

É usual no campo de investigação ao GIFI se dedica que as designações a que se recorre sejam amplamente discutíveis e, portanto, amplamente passíveis de critica. Aliás, é, desde logo, difícil cristalizar numa palavra ou expressão sintética a nossa área de intervenção. “Insólito”, “Mistério”, ”Fronteiras da Ciência”, são termos ao mesmo tempo admissíveis, mas insatisfatórios por demasiadamente vagos e, principalmente, por se prestarem a interpretações que se afastam decididamente do âmbito de trabalho que prosseguimos.

Talvez melhor fosse que nos referíssemos, como objecto de estudo, às dimensões da crença humana, definidora, em boa medida, do que é o Homem, matéria que fazemos por abordar de forma objectivo, por tomarmos como única pré-condição das nossas investigações a desconsideração das nossas convicções individuais, como forma de assepsia que melhor possa garantir a qualidade dos dados que pretendemos obter.

De igual forma, o título do presente artigo presta-se, por si só, a amplo debate.

Usamos como título "Sociedades iniciáticas". De que queremos exactamente falar ? Porquê "sociedades"? Porquê "iniciáticas" ?

Quanto ao primeiro termo, a questão não é de difícil resposta. Não entrando em debates que apenas interessam aos juristas, mas sim recorrendo ao significado comum do termo, rapidamente concluímos que nos estamos a referir a agrupamentos sociais, a grupos humanos organizados.

Em suma, trata-se de um grupo de pessoas que se reúnem em torno de uma finalidade comum, estabelecendo um corpo dotado de regras, de uma orgânica interna e, ao menos tendencialmente, de uma vocação para perdurar no tempo, eventualmente institucionalizando-se, isto é, sobrevivendo para além do conjunto de associados fundadores, ou mesmo daqueles que em cada momento futuro ali permaneçam como membros.

Até aqui nada temos de novo, visto que a vida em sociedade gera, naturalmente, diversíssimas organizações com estas características, quer ao nível da actividade económica (sociedades comerciais, predominantemente), quer no que se refere a outras campos da actividade humana (associações, fundações, entre outras).

Assim sendo, o qualificativo que permite distinguir o nosso objecto de estudo dessas outras organizações é a sua particular finalidade: a iniciação.

Em termos muito simples, iniciação significa o acto de passagem da condição de profano à de iniciado, ou seja a recepção de um conhecimento, ou parcela deste, oculta para o homem comum.

Antes ainda de avançarmos na compreensão deste conceito, importa afastar as confusões vulgarmente decorrentes do uso da expressão “sociedades secretas”.

O simples facto de se falar de um conhecimento oculto para o comum dos mortais, que é facultado ao iniciado, àquele que renasce, como homem novo, após ter tido acesso a uma nova luz, implica que tal conhecimento seja qualificável como secreto.

O conhecimento esotérico, não acessível aos membros da comunidade que não tenham alcançado a iniciação, é necessariamente mantido como segredo, por se considerar que não deve revelado àqueles que não se encontram preparados para o receber - a generalidades dos homens.

Há, portanto, um conhecimento secreto (chame-se-lhe Tradição, Doutrina, Saber), mantido, desenvolvido, transmitido, no seio das sociedades iniciáticas.

Não quer isso dizer que tais organizações devam ser qualificadas como “sociedades secretas”.

O seu secretismo, enquanto organizações, pode eventualmente ocorrer, numa dada época histórica e contexto social, por força das eventuais perseguições a que os seus membros estejam sujeitos, em virtude de regimes políticos ou de correntes religiosas predominantes, que se caracterizem pela intolerância.

Pode, portanto, dar-se como assente que não é da essência das sociedades iniciáticas serem “secretas”.

É também relativamente vulgar a caracterização destas organizações - num trocadilho algo sarcástico, mas que consideramos certeiro - como “sociedades discretas”. De facto, as sociedades iniciáticas, por terem como finalidade o conhecimento esotérico, primam normalmente pela descrição, isto é, a propaganda das suas actividades é relativamente reduzida, ocorrendo até que a sua existência não é divulgada publicamente, se bem que possa chegar ao conhecimento dos profanos mais pertinazes (e respeitadores da crença alheia), como será eventualmente o nosso caso.

Analisando-se as sociedades iniciáticas no Portugal do nosso tempo e (mutatis mutandis) nos países do vulgarmente chamado “ocidente desenvolvido economicamente”, verificamos que a informação publicamente disponível acerca dessas mesmas sociedades é mutíssimo vasta, quer no que se refere a bibliografia, quer no número e relevância das referências que se podem encontrar na comunicação social, quer ainda quanto às iniciativas públicas (conferência, cursos, debates, exposições) que realizam.

Caso paradigmático será o da maçonaria, particularmente das obediências regulares, cuja existência, funcionamento e actividade se pode actualmente dizer serem, muito razoavelmente, do domínio público.

Aquim ficam, em abono do debate, algumas definições de iniciação, sem nos pronunciarmos quanto à sua valia relativa, pois na verdade nos parece ser este um campo no qual só se ganha por se fugir a dogmatismos.

- Jean CHEVALIER e Alain GHEERBRANT “Dictionnaire des sýmboles”, Onziéme réimpression, Robert Laffont / Jupiter, Paris, 1990, páginas 521 e 522; (tradução do GIFI)

“Sentido de “téleutai”: fazer morrer. Iniciar, é de uma certa forma morrer, provocar a morte. Mas a morte é considerada como uma saída, o franquiar uma porta que dá acesso a algures. à saída sucede uma entrada. Iniciar, é introduzir.
O iniciado franqueia o cortinado de fogo que separa o profano do sagrado; ele passa de um mundo a outro e sofre por esse facto uma transformação; ele muda de nível, ele fica diferente.
A transmutação dos metais (no sentido simbólico da alquimia) é também uma iniciação que exige uma morte, uma passagem. A iniciação opera uma metamorfose.
A morte iniciática não se refere à psicologia humana, mas à morte a respeito do mundo, enquanto ultrapassagem da condição de profano. O neófito parece realizar um processo de regressão, o seu novo nascimento é comparado a um regresso ao estado fetal no ventre de uma mãe. Certamente, ele penetra na noite, mas a noite que lhe diz respeito, se ela é comparável àquela do seio materno, é de tipo mais amplo que a noite cósmica.
Todos os rituais comportam procedimentos particulares em relação à morte iniciática. O candidato pode ser colocado num túmulo escavado em seu proveito, coberto de ramagens, coberto por um pó que lhe confira a brancura de um cadáver. (ver sobre estes ritos Mircea Eliada, Mystère et régéneration spirituelle dans les religions extra-européennes dans Eranos Jahrbuch, 1945, 23, p. 65 s). è um rito de passagem, simbolizando o nascimento de um ser novo.
Num plano cristão, os sofrimentos estão ligados à passagem de um estado a outro, indo do homem antigo ao homem novo, com as suas diversas provas. É suficiente para se compreender reportar-mo-nos aos monges do deserto, às provas sofridas pela potência dos demónios, de onde o nome de tentações dado a esses fenómenos: a de Santo António será a mais célebre e a mais deformada. O cristianismo identificou as forças do mal a demónios torturando o homem, que passa do estado profano ao estado de santidade, não forçosamente por escolha voluntária pessoal, mas porque ele foi escolhido.
A morte iniciática prefigura a morte, que deve ser considerada como a iniciação essencial para aceder a uma vida nova. Entretanto, antes da morte real, graças à morte iniciática incessantemente repetida, no sentido que São Paulo exige aos cristãos ( I Cor. 15, 31), o homem constrói o seu corpo glorioso. Ele penetra com efeito pela graça - continuando a viver no mundo profano, ao qual ele não deixa de pertencer - na eternidade. A imortalidade não surge depois da morte, ela não pretende decididamente à condição post mortem, ela forma-se no tempo e ela é fruto da morte iniciática.”

- Pierre RIFFARD “ Dicionário de esoterismo, Teorema, Lisboa, 1994, páginas 192 a 194;

“ Etim. latina: initium = “início”
Sucessão de ensinamentos e de práticas tendo por encenação mítico-ritual a sucessão prova / morte / nascimento, e por objectivo (finalidade e objectivo) o acesso a um nível de vida (corporal, afectivo, espiritual; social, profissional) superior à condição humana comum.
Do ponto de vista das categorias, as etnologias distinguem três tipos de iniciação:
- iniciação tribal, ou “iniciação da puberdade”, ou “rito de iniciação”, ou “rito da puberdade”, ou iniciação de classe etária”, ou “segundo nascimento”.
“Rito de agregação a tribo” diz Guénon (Mélanges, 1949, p. 43).
Esta “iniciação” é obrigatória para todos os membros do clã (mesmo que não se reunam todos ), existe sobretudo nos “Primitivos”, consiste em ritos de passagem marcados pela sequência separação / introdução/ regresso, compreende quase sempre mutilações (v. circuncisão, excisão) e humilhações, introduz o jovem na comunidade humana e no mundo cultural, tem lugar principalmente durante a puberdade. Em resumo, trata-se mais de uma cerimónia de integração do que de um rito de iniciação.
ex. a intichiuma dos aborígenes australianos Arunta, a upanayama do Hinduísmo (v. nascimento iniciático) (Ashvalaiyana Grhyasutra, I, 19 = Veda, t. e, pp. 452-459), a iniciação da puberdade grega (H. Jeanmaire, Couroi et Courètes, Lille, 1939).
“ Para os indígenas ( da Austrália), o essencial era e continua a ser por todo o lado a indicação do nome dos demas (os criadores divinos e seres primordiais que existiam nos tempos míticos: termo da Nova Guiné), a entrega dos tjurungas (churinga) deixadas por eles no chão e ritos ligados a esses objectos, e por fim a instrução moral e social recebida pelo candidato depois desses ritos” (Nevermann, Worms, Petri, Les religions du Pacifique et d’Australie, 1968, trad. do al., ed. Payot, 1972, p. 318).
- Iniciação nas sociedades secretas, ou “iniciação religiosa”.
Cerimónia composta por ritos cujo significado é simbólico e que permite a introdução numa sociedade secreta, que constitui por vezes uma autêntica organização iniciática.
ex: a iniciação maçónica, companheirística.
“Os ritos de entrada numa sociedade secreta correspondem a todos os níveis às iniciações tribais: reclusão, torturas, provas iniciáticas, morte e ressurreição, imposição de um novo nome, revelação de uma doutrina secreta, ensinamento de um língua especial, etc. (M. Eliade, Naissances mystiques, p. 162).
- Iniciação especializada, ou “iniciação mística”, “iniciação mágica”, “terceiro nascimento”, iniciação no sentido restrito.
Acesso a um nível superior de vida, sobretudo espiritualmente, que exige qualidades e uma eleição.
“ A iniciação tem fundamentalmente por objectivo ultrapassar as possibilidades desse estado (estado individual humano) e de tornar efectivamente possível a passagem a estados superiores, e mesmo, finalmente, conduzir o ser para além de qualquer estado condicionado, seja ele qual for” ( R. Guénon, Apreçus sur l’initiation”, p. 27).
Ex: a diska no Hinduísmo (cf. Ginda, Cahnge and continuity in indian religion, Haia, 1965, pp. 315-462).
B. E.U.; M. Eliade, Naissances mystiques, 1975, colec. Idées, pp. 24 sq., 270.
Impõem-se outras distinções.
Do ponto de vista interior:
- iniciação-processo (em grego muésis): caminhar interior;
- iniciação-ensinamento: acesso à instrução e à prática;
e do ponto de vista exterior:
- iniciação-cerimónia (em grego teleitê): ritos;
- iniciação-afiliação: admissão numa sociedade secreta, ou numa sociedade invisível.
Do ponto de vista da eficácia (R. Guénon, Aperçus sur l’initiation):
- iniciação efectiva: a influência espiritual é actualizada no seguimento de um trabalho real; por ex: a yoga praticada adequadamente permite a realização das potencialidades;
- iniciação virtual: a influência espiritual é transmitida de forma ritual mas o iniciador ou o “iniciado” não compreende todo o seu significado, e a sua eficácia existe apenas potencialmente (em germe); por ex: a iniciação maçónica só confere potencialmente o sentido do simbolismo e do ritual da construção.
Do ponto de vista da ortodoxia:
- iniciação regular: conferida por um representante autêntico de uma organização verdadeiramente iniciática; ex: no Sufismo;
- iniciação individual (“espontânea”, afirma Steiner): alcançada não graças a um Mestre ou a uma sociedade, mas sim graças ao esforço pessoal (Buda) ou a um “favor divino” (Platão, República, VI, 439a).
Do ponto de vista do valor (R. Guénon, R.Q.S.T):
- iniciação: “transmissão” da “influência espiritual”;
- pseudo-iniciação: “fraude”, “farsa”;
- contra-iniciação: “espiritualidade invertida”; por ex. o satanismo.
Do ponto de vista das funções sociais indo-europeias (cf. G. Dumézil, L’idéologie tripartie des Indo-Européens, 1958, Bruxelas) (v. Castas 1):
- iniciação soberana: quer jurídica (real), quer mágico-religiosa (sacerdotal), cf. os Druidas, os Brahmanes;
- iniciação guerreira: cf. os templários, o Graal;
- iniciação artesanal: cf. o Companheirismo, a Franco-Maçonaria operativa.
Do ponto de vista da forma:
- iniciação ritual: baseada ou expressa em ritos, cerimónias, festas;
- iniciação espiritual: sem rito nem pessoal nem sociedade nem hierarquia, mas baseada em orações e no silêncio (ex: C.H., XIII, 22).
B- R. Guénon, Initiation et réalisation spirituelle (1952) Éditions Traditionnelles, 208 p.; Aperçus sur l’initiation (1946) Éditions Traditionnelles, 1953, 303 p.”