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  THE PAGAN FEDERATION INTERNATIONAL – PORTUGAL


PFI – Associação Cultural Pagã


 


XI Conferência Anual de Paganismo PFI


Casa de Goa, Lisboa


22 de Novembro de 2008


 


Rito da PFI na Aldeia de Chãs, Vila Nova de Foz Côa


- na perspectiva dos investigadores -


 


1- O GIFI


 


Para os que ainda não nos conhecem, importa antes de mais que apresentemos o GIFI – Associação Portuguesa para a Investigação.


 


A nossa associação, que celebra este mês o seu trigésimo segundo aniversário, tem como missão o trabalho nas “fronteiras da ciência”, no sentido de termos em vista a realização de investigação nos limites (ou para além do limite) dos conhecimentos científicos actuais.


 


Também recorremos à expressão “limites do conhecimento”, pelo facto de nos nossos estudos nos movermos em terrenos propícios à crença, quer num sentido religioso ou espiritual, quer no que costumamos definir como “crença na ciência”.


 


Não se trata de pretendermos colocar em causa, de criticar ou de escrutinar as crenças e convicções alheias, que, antes de mais, respeitamos, mas sim de afastar, tanto quanto possível, as nossas próprias crenças individuais do processo de raciocínio, durante investigação, o que nos parece ser particularmente viabilizado por trabalharmos em grupo.


 


De outro ponto de vista, com os limites e a prudência adequados, as crenças em si próprias consideradas têm sido objecto relevante do nosso estudo.


 


Já o combate à “crença na ciência” e à “pseudo-ciência” constitui um dos nossos objectivos principais, na medida em que nos parece ser actualmente uma das mais sérias violações do genuíno conhecimento humano.


 


Manifestamo-nos, assim, contra a tentação positivista de procurar tudo explicar através da ciência, mesmo quando se deveria assumir, no mais puro espírito científico, a nossa ignorância, mas também contra todas as formas de proselitismo malevolamente encoberto por vestes académicas ou similares.


 


2- Paganismo


 


Entre os temas a que nos dedicamos, o paganismo foi surgindo, ao longo dos anos, essencialmente como um ponto de referência colateral, no âmbito e por força do estudo de outras matérias.


 


Apenas de uma forma exemplificativa, pode referir-se o trabalho que temos vindo a desenvolver relativamente a aspectos da história local portuguesa e do nosso património edificado, que repetidamente nos tem conduzido a locais onde são evidentes as marcas de cultos religiosos pagãos, tantas vezes sincreticamente integrados em manifestações da crença cristã.


 


Desenvolvemos igualmente, já há vários anos, investigações acerca do esoterismo e ocultismo, encontrando-se traços de paganismo bem presentes neste âmbito, nomeadamente por inclusão na prática ritual, em agrupamentos e organizações que se dedicam à Magia Cerimonial, tais como a Golden Dawn ou a Argenteum Astrum.


 Por fim, sempre a título de exemplo, nos nossos estudos acerca de história do esoterismo em Portugal, Fernando Pessoa surge como um referencial incontornável nas primeiras três décadas do século XX, sendo bem conhecida a sua fase neo-paganista, particularmente através da sua expressão na poesia do heterónimo Alberto Caeiro.


 


Entre outros textos, Pessoa chegou a elaborar, em 1917, um plano de publicações para o movimento neopagão português e um programa geral do neopaganismo[i].


 


A verdade, no entanto, é que até meados de 2006, quando pela primeira estabelecemos contacto com a PFI, a imagem que tínhamos do neo-paganismo actual resumia-se às formas dispersas de crença individual e aos sinais de actividade mágica que, nos últimos anos, se encontram um pouco por todo o lado, a começar, como bem sabem, pela Internet.


 


Tendo sido convidados a responder ao inquérito realizado no âmbito do Relatório Decano sobre o paganismo em Portugal, realizado em 2006, viemos encontrar na PFI uma abordagem do paganismo como um movimento religioso plural, caracterizado por um labor intenso, rigoroso, de recuperação e estudo da religião pagã, particularmente dos seus rituais, numa lógica de paganismo moderno internacionalmente federado.


 


Esta revelação, se nos permitem o uso da expressão, na sequência da nossa participação como assistentes no IX Encontro Anual de Paganismo, realizado aqui mesmo, na Casa de Goa, a 21 de Outubro de 2006, conduziu-nos a delinear um plano de estudos, tendo em vista conhecer e caracterizar o paganismo federado, enquanto realidade religiosa integrante da estrutura social contemporânea portuguesa, bem como para desenvolvermos os nossos conhecimentos acerca das particulares práticas rituais desenvolvidas pelos membros e simpatizantes da PFI.


 


Sendo a recuperação e actualização dos rituais ibéricos pré-romanos, particularmente os que se realizavam na área geográfica que actualmente corresponde a Portugal continental, uma realidade que muito nos interessa, por fazer confluir materiais da ciência histórica com a prática ritualística actual, deu-nos a PFI a possibilidade de assistir, em 30 Junho de 2007, aos cerimoniais integrados na peregrinação politeísta ao Endovélico, no Alandroal.


 


Depois, já com alguma bagagem informativa adicional resultante de conversas com os responsáveis da PFI e da assistência a algumas das suas palestras, estivemos em Foz Côa no solistício de Verão de 2008.


 


É o registo dessa experiência, em termos da descrição, caracterização e análise do ritual ibérico realizado no início da tarde de 21 de Junho de 2008, que nos cabe realizar no âmbito desta conferência.


 


Iremos apresentar uma sequência fotográfica do ritual, imagens essas que, certamente, caracterizarão de forma mais eloquente que as nossas palavras o rito a que assistimos. Procuraremos acompanhar a apresentação das fotografias com comentários que vos permitirão conhecer a perspectiva dos investigadores, ao assistir a um ritual deste tipo.


 


3- Ritual ibérico em Foz Côa


 


Como dissemos, acompanhámos a convite da PFI às celebrações do solistício de Verão realizadas na Aldeia de Chãs (Vila Nova de Foz Côa) a 21 de Junho de 2008.


 


Não cabe no objecto da nossa intervenção nesta conferência a referência ao Festival do Solistício de Verão, realizado em Chãs, nos dias 20 e 21 de Junho deste ano, repetindo iniciativas de anos anteriores, da responsabilidade da “Comissão Evocativa do Solistício de Verão”, animada por Jorge Trabulo Marques e apoiada pela junta de freguesia local.


A PFI foi convidada a integrar esse festival, à qual igualmente assistimos durante o final da tarde e início da noite de 21 de Junho, tratando-se, no entanto, de situação paralela ao rito que nos cabe dar-vos aqui a conhecer, pelo que se trata de assunto substancialmente irrelevante para o objecto da nossa intervenção.


 


Chegados ao final da manhã desse dia 21 de Junho ao planalto denominado dos Tambores, a Norte da Aldeia de Chãs, logo encontrámos o grupo da PFI, integrando essencialmente membros e simpatizantes portugueses, bem como uma pequena delegação representante dos paganistas espanhóis, assim se sublinhando o carácter ibérico do ritual a que íamos assistir.


 


Como observadores convidados, para além do GIFI encontrava-se o Prof. Doutor Moisés Espírito Santo.


 


Conforme nos foi explicado, o local do ritual foi escolhido pela PFI tendo em conta a especial carga que lhe é atribuída, por se encontrar próximo do que consideram ser as ruínas de um antigo castro, o qual atribuem à tribo dos Vetões.


 


Anote-se que não há registos historiográficos relativamente a esse castro. Apenas, que conheçamos, encontra-se referência na bibliografia ao resultado de escavações realizadas no Castelo Velho dos Tambores, situado num estreito vale, escassas centenas de metros a Norte do local onde foi realizado o ritual[ii].


 


Nem sempre, no entanto, a ciência tem de ter a primazia. Esclareceu-nos Isobel Andrade que, para além da experiência dos membros da PFI na identificação nas pedras dos sinais de uma antiga ocupação humana, é também a própria sensibilidade do sacerdote pagão que o conduz à escolha do local adequado à prática de um determinado rito.


 


Neste caso, tratando-se de um local onde não haviam realizado anteriormente rituais, era essencial, segundo a suma sacerdotisa, o conforto da presença dos antigos para, no sítio onde fixaram habitação, os oficiantes melhor integrarem e compreenderem as forças e as energias que durante o ritual ali se podem fazer sentir.


 


Na preparação do cerimonial foi cuidadosamente limpa de ervas uma zona suficientemente ampla para acolher um círculo integrando os participantes no ritual, tendo o centro daquele sido, inicialmente, marcado com alguns objectos rituais.


 


Os quatro pontos cardeais foram assinalados no chão, de forma exacta, através de pequenas estacas de madeira enfeitadas com tiras de pano coloridas, azul a Este, amarelo a Sul, verde e vermelho a Oeste e vermelho a Norte.


 


Recorrendo às nossas notas tomadas numa das palestras da PFI, encontramos o seguinte quadro de referência:


 


-          Este: Elemento ar, Primavera, Quarto Crescente;


-          Sul: Elemento fogo, Verão, Lua Cheia;


-          Oeste: Elemento água, Outono, Quarto Minguante;


-          Norte: Elemento terra, Inverno, Lua Nova.


 


Numa pedra vertical em forma de paralelepípedo, situada a uns 20 metros do terreiro, Thorg da Lusitânia colocou a sua vara cerimonial (haverá, certamente, uma palavra mais correcta para a nomear, que humildemente declaramos ainda não conhecer ...). Devem em todo o caso, referir-se que, na tradição, a vara relaciona-se com o elemento ar.


 


Anote-se que, numa conversa posterior ao ritual, ocorrida em Lisboa, Thorg da Lusitânia esclareceu-nos que considera terem existido no local duas pedras levantadas, da qual só resta a que acima referimos, sendo que tais pedras serviriam para indicar o Este, em alinhamento com o Sol no solistício. Nessa linha, considerando as pedras do Sol e os montes situados no horizonte, a Oeste, residiria a marcação dos povos primitivos da direcção do solistício.


 


Na sua arrumação final, no centro do espaço ritual foi levantada uma vara, amparada por algumas pedras, tendo ali sido pendurados quatro cornos adaptados como recipientes para líquidos, enquanto um pequeno caldeirão de ferro negro, com tampa, foi colocado estrategicamente, contendo preparados destinados a produzir fumigações. Tradicionalmente o caldeirão relaciona-se com o elemento água.


 


Isobel Andrade explicou que os não pagãos poderiam participar no ritual, seguindo cautelosamente as indicações que lhes seriam dadas, antes e durante o rito, apenas com a condição de que quem saísse do círculo, por exemplo por não se sentir bem, já não poderia voltar a entrar.


 


Pela nossa parte, tal como o fez o Prof. Doutor Moisés Espírito Santo, colocámo-nos o mais confortavelmente possível sentados sobre as grandes pedras situadas em redor do terreiro.


 


Foi-nos ainda explicado, antes do início do cerimonial, que o ritual a que íamos assistir é de tipo ibérico, integrando a invocação de diversos deuses do panteão dos nossos antepassados peninsulares, no entendimento da PFI relacionados com a região em que concretamente nos encontrávamos, que consideram corresponder principalmente à influência dos povos Vetão e Lusitano.


 


Não se tratou, conforme nos esclareceu posteriormente Isobel Andrade, de uma reconstrução, mas sim de uma recriação do que poderá ter sido um ritual realizado por esses nossos antepassados, numa adaptação sincrética dos antigos rituais, até onde actualmente podem ser conhecidos, aos referenciais simbólicos e regras ritualísticas do moderno neo-paganismo. Portanto, mesmo do ponto de vista da recriação, portanto, os elementos ibéricos não foram apresentados numa forma pura, mas sim integrados numa lógica mais vasta, neo-pagã.


 


O ritual propriamente dito decorreu, exactamente, entre as 13h15m e as 14 horas.


 


Procuraremos na nossa descrição seguir a síntese sequencial do ritual,  comentando, na medida do que nos é possível, à luz dos nossos conhecimentos, alguns aspectos que reputamos essenciais da sua estrutura e sequência. 


 


Preparação:


 


Antes do ritual propriamente dito, portanto fora do intervalo de tempo acima referido, enquanto a generalidade dos presentes se encontrava em preparativos, na zona das tendas, Thorg da Lusitânia aproximou-se da pedra levantada situada a Este do terreiro e realizou sozinho uma longa prece  e / ou invocação.


 


            Início (Sol e Fogo; os Quatro Elementos):


 


Inicialmente, no interior do círculo encontravam-se apenas Isobel Andrade - a suma sacerdotisa- e os demais oficiantes, duas das quais empunhando adufes, cujo toque ritmado se inicia logo nesta fase e acompanhará a maior parte do ritual.


 


Fora do círculo, a Este, os participantes no ritual formaram em fila indiana, com um oficiante no final. A posição de cada participante nessa fila determinou a ordem de entrada no círculo, respeitando uma sequência de modo a que certos oficiantes tomassem posição nos pontos cardeais, uma vez dentro do círculo ritual.


 


Repare-se, como uma primeira nota, que apenas os dois sumo sacerdotes e os demais oficiantes estiveram no interior do círculo ritual, enquanto os participantes, acompanhados por alguns outros oficiantes, permaneceram sempre no limite externo da circunferência.


 


Thorg da Lusitânia, o sumo sacerdote, aproximou-se da pedra situada a Este do terreiro e, levantando ambos os braços, realizou uma primeira invocação (ou prece), dirigida ao Sol e  a “Vélico”, em suma, ao deus Endovélico.


 


De seguida, sempre junto à pedra levantada, Thorg da Lusitânia recebeu do oficiante que o acompanhava um archote aceso que, aproximando-se da pedra e fazendo nova invocação, levantou ao alto na mão direita, prosseguindo a prece dirigida ao Endovélico.


 


Logo que termina a invocação, Isobel Andrade, no interior do círculo ritual, dirige ela própria em voz alta uma prece ao Sol.


 


De seguida, trazendo o archote na sua mão direita e a vara cerimonial na esquerda, Thorg da Lusitânia contornou no sentido horário, um por um e, quanto aos últimos quatro, em grupo, os oficiantes, tudo isto se afigurando uma purificação pelo fogo.


 


Já no interior do círculo, ambos os sumo sacerdotes prosseguem o seu labor, preparando o que a seguir virá.


 


Entretanto, um dos oficiantes aproxima-se do centro do círculo, acendendo algo com o archote, dentro de um dos potes de ferro.


 


Abertura dos Portais do Céu:


 


Como se viu, na fase anterior do rito começou por ser convocada uma potência divina masculina, o Endovélico.


 


Prosseguem agora os sumo sacerdotes convocando os espíritos do fogo, do ar, da terra e da água, no sentido de abrirem os “portais do céu” e unir “o céu à terra”. A concluir esta parte do rito, Isobel Andrade invoca Trebaruna, batendo com a vara três vezes no chão, antes de começar a caminhar em círculo.


 


Assim temos, portanto, a potência divina feminina juntando-se à masculina, antes e separadamente da invocação dos deuses especificamente convocados para o centro do ritual.


 


Os oficiantes que se encontram no interior do círculo deslocam-se agora pelo seu extremo, em sentido horário.


 


Thorg da Lusitânia, que entregou a vara a uma das oficiantes, gira sobre a cabeça, com grande rapidez e no sentido anti-horário, um objecto na ponta de uma corda. Vimos, mas já sabemos que não se trata de aspecto do ritual passível de explicação aos profanos ou, sequer, que estes devam comentar.


 


            Completa-se o Círculo Mágico:


 


Thorg da Lusitânia recupera a vara enquanto, orientados por Isobel Andrade e por uma das oficiantes, os demais participantes começam a entrar no círculo por Este, um após outro, em fila indiana e em sentido horário.


 


Nesta fase, nos pontos cardeais encontram-se quatro oficiantes.


 


Voltam, então, todos a circular em sentido horário, lentamente e em silêncio, permanecendo na zona central do círculo apenas Thorg da Lusitânia, Isobel Andrade e três oficiantes, entre as quais aquelas que tocam ritmadamente os adufes.


 


Os participantes e o solo são então aspergidos com água. Depois da purificação pelo fogo, apenas dirigida aos sacerdotes e oficiantes, temos a purificação pela água, aplicada a todos os participantes.


 


      Invocação aos Deuses:


 


Os dois sumo sacerdotes juntam as mãos e levantam-nas ao alto, fazendo ambos, sequencialmente, uma exclamação que não conseguimos compreender. Isobel Andrade refere-se aos nomes dos deuses e à sua manutenção, ao longo dos tempos, posto o que dá voz de comando às atalaias.


 


Os participantes param de circular, ficando parte dos oficiantes nas portas (atalaias, portanto) correspondentes às quatro direcções geográficas principais. Os adufes voltam a soar, enquanto o pote fumiga fortemente.


 


Thorg da Lusitânia, seguido por dois oficiantes aproxima-se, de um dos paganistas estrangeiros, que se encontra na posição Este. Cumprimenta-o com um aceno de cabeça, posto o que os três dão uma volta completa ao círculo, em sentido horário.


 


De seguida são feitas invocações nos vários pontos cardeais, sequencialmente Thorg da Lusitânia a Este, Isobel Andrade a Sul e a Oeste, Thorg da Lusitânia de novo a Norte, sempre com um dos oficiantes dirigindo-se previamente a cada porta, tocando uma forte buzina e declarando a abertura dos portais, na direcção geográfica respectiva.


 


Isobel Andrade realizou sempre um movimento que interpretamos como de abertura, com um vara de madeira que apontou, em cada caso, para cada uma das portas cardeais do círculo, enquanto Thorg da Lusitânia, na mesma situação, empunhou a vara ao alto, na sua mão direita, sendo ainda um gesto de abertura com um corno realizado por um dos oficiantes, após cada invocação realizada por um dos sumo sacerdotes.


 


Em cada momento, os oficiantes e participantes que permaneceram no círculo exterior viraram-se para a direcção geográfica na qual estava a ser feita a invocação.


 


A Este foram invocados Banda ou Bandúa (“senhor dos caminhos e das encruzilhadas”), a Sul Aetácina (“senhora da Bética, Cantábrica e Lusitânia, senhora das terras do Sul”), a Oeste Nabia (“que sais das entranhas de Arúna, sémen de Tonguué”, “senhora das águas”) e a Norte Turiácu (“senhor dos penhascos e das florestas da Ibéria”).


 


Quando se abriu a Porta Oeste, sob o chamamento de Nabia, levantou-se uma grande ventania, que durou até se concluir a invocação. Quem, como nós, observa, nem sempre deve (ou, sequer, pode) comentar.


 


Todos, no extremo do círculo, e alguns dos oficiantes na zona central voltaram a circular em sentido horário exclamando repetidamente “da Terra ao Sol, do Sol à Terra, noite e dia a Terra gira, gira girou”, sempre ao som dos adufes e num ritmo crescente.


 


A dado momento, após alguns minutos decorridos na fase do ritual que se acaba de descrever, Thorg da Lusitânia, que tinha permanecido no centro do círculo, levantou ao ar na mão direita um dos cornos, presumivelmente contendo vinho, posto o que todos os oficiantes pararam, ao mesmo tempo que Isobel Andrade dirigiu nova exclamação “à Terra e ao Sol”.


 


            Libação com o Vinho e Consagração da Terra Ibérica:


 


De seguida, foi lançado vinho nos quatro pontos cardeais, posto o que a bebida, mantida nos cornos adaptados como recipiente, foi servida a todos os participantes.


 


Isobel Andrade dirigiu então algumas palavras aos presentes, explicando nomeadamente o facto dos oficiantes estrangeiros terem trazido terra de Espanha, para ser colocada no círculo ritual, sublinhando dever ser o paganismo uma via de união entre países e seus povos.


 


Em conjunto, todos levantaram o copo ao alto, dizendo Isobel Andrade “aos ancestrais deuses” e “assim os seus nomes permaneçam vivos”, posto o que despejaram uma pequena quantidade de vinho no solo, destinada, segundo os oficiantes, aos quatro deuses que estavam no centro do circulo, bebendo de seguida.


 


Isobel Andrade deitou alguma terra (ibérica) ao chão, circulando em sentido anti-horário seguida por dois dos oficiantes e por Thorg da Lusitânia, posto o que Isobel Andrade gritou “arrayá”, respondendo os demais oficiantes, na parte interior do círculo, com idêntica exclamação, seguindo a suma sacerdotisa dizendo “por Aetácina, por Bandua “ e Thorg da Lusitânia “por Turiácu, por Nabia”.


 


Seguidamente, Isobel Andrade exclamou “que o poder dos antigos se renove e no mundo nova vida surgirá” começando todos a circular em sentido anti-horário, repetindo aquela frase ao som dos adufes. Os sumo sacerdotes foram proferindo votos “por Turiáco” “por Nabia” “por Banda” “pela Ibéria” “por Portugal” “por Espanha” “por nós” e assim por diante, parando todos, por fim, a nova exclamação “arrayá” proferida pela suma sacerdotisa e, logo de seguida, repetida por outra das oficiantes.


 


Depois de pararem, Isobel Andrade pediu a todos para sentirem a energia a fluir, dirigindo nova prece ao Sol, seguida de nova chamada por parte dos dois sumo sacerdotes a Vélico (Endovélico).


 


            Despedida aos Deuses:


 


De seguida, regressou-se à cerimónia nas portas, agora para as encerrar, com a despedida aos deuses invocados, começando todos por circular em sentido horário, fazendo gestos de adeus.


 


Logo que todos pararam de circular, a cerimónia de encerramento das portas foi realizada exactamente como reverso da acima descrita, durante a invocação aos deuses, começando portanto com Thorg da Lusitânia a Norte. Uma frase repetida foi “agora que ides partir para os vossos encantados reinos”.


 


Todos voltaram então a circular em sentido anti-horário, saindo depois do círculo ritual pelo Este, numa sequência devidamente enquadrada pelos oficiantes.


 


Thorg da Lusitânia voltou por fim a dirigir-se à pedra levantada, onde colocou erectas a vara cerimonial e uma outra vara de madeira.


 


4- Os deuses:


 


Acabámos de referir os deuses invocados durante o ritual.


 


Recorrendo à bibliografia nacional relativa ao tema das divindades indígenas pré-romanas na península ibérica, em particular entre os lusitanos[iii], vamos agora sumariar as informações disponíveis em termos historiográficos acerca dessas divindades.


 


Endovélico


 


Deus do panteão lusitano, cujo nome será céltico.


 


Tratar-se-ia de uma divindade tópica, protectora da região, pelo que o culto estaria circunscrito geograficamente. Seria um deus da montanha. Era, também, um deus curandeiro, como atestam diversas fontes históricas. No seu santuário prognosticava-se o futuro. Outros sublinham tratar-se de um deus do inferno.


 


Foram identificadas aras, tabulas e cippos dedicados a esse deus em São Miguel da Mota, Alandroal.


 


É considerado o deus lusitano de que se conhecem mais registos históricos.


 


Trebarúna


 


Deusa do panteão lusitano.


 


Há quem sustente que a vocábulo é céltico (treboruna), significando “segredo da casa”. Tratar-se-ia, portanto, originariamente de um génio doméstico, que velaria pela casa onde habitava.


 


Tendo em conta as aras votivas encontradas, onde a deusa aparece associada à deusa romana Victoria, Trebarúna terá posteriormente passado à qualidade de divindade guerreira.


 


Outros autores admitem que se trataria de uma deusa protectora de uma tribo ou agrupamento humano.


 


Foram identificadas aras votivas a essa deusa em Idanha-a-Velha.


 


Banda ou Bandúa


 


Banda nomeia um grupo lato de divindades, denominado pelo autores como “grupo band-“.


 


É referido como divindade masculina, mas também como feminina.


 


Bandua, especificamente o nome claramente invocado no ritual, corresponde a uma inscrição referenciada em Cova da Lua, Bragança, hoje perdida. Terá, para alguns autores carácter feminino.


 


José D’Encarnação conclui tratar-se de uma mesma divindade, com formas linguísticas e epítetos diferenciados, conforme os lugares e forma de culto. O autor inclina-se para a qualificação como uma divindade masculina.


 


O nome Banda é relacionado, através da sua forma indo-europeia com a ideia de ligar. Tal sentido, aliás, permanece em diversas línguas actuais, incluindo a portuguesa. Seria, portanto, uma divindade tutelar, ligado a uma determinada povoação ou tribo.


 


A extensão do seu culto terá sido muito grande, tratando-se de uma das divindades mais veneradas na Península Ibérica antes da chegada dos romanos.


 


Aetácina


 


Deusa do panteão lusitano, também referida como “Atégina”, “Ataecina” e “Ataegina”.


 


O nome poderá ser de origem céltica, relacionando-se com “fogo” e “noite”.


 


Conhecem-se registos históricos em lápides e em bronze, contendo inscrições romanas.


 


Parece, segundo as inscrições epigráficas, que a deusa se relaciona de forma estrita com Turóbriga, onde terá tido um grande santuário. Esta localidade situava-se na Bética, sendo o topónimo céltico, mas é desconhecido o local exacto onde existiu .


 


O seu culto situar-se-ia nas bacias oriental e ocidental do Guadiana e entre o curso Norte desse rio e o Tejo, com uma inscrição encontrada já na bacia do Guadalquivir.  Este extenso território torna o culto a Aetácina muito importante.


 


Seria na origem uma deusa da terra e dos frutos da terra.


 


Foi identificada com a deusa romana Prosérpina, cujos atributos se referem à fertilidade agrária.


 


Esta relação não é, no entanto, pacífica entre os autores, sendo nomeadamente disputada por José D’Encarnação. Outros autores admitem a identificação entre Prosérpina e Aetácina pelo respectivo valor infernal e não pelo agrícola. Chegam a admitir Endovélico e Aetácina como um par divino, nesse contexto infernal.


 


Era também, para alguns, uma deusa médica, o que para José D’Encarnação se encontra insuficientemente provado.


 


Nabia


 


Deusa do panteão lusitano.


 


Também chamada Navia, há quem admita haver mais do que uma deusa com o mesmo nome, apresentando epítetos diferentes conforme o povo ou tribo que lhe prestava culto.


 


Trata-se de uma deusa aquática, havendo quem a relacione com o rio Nábios ou Navea, situado na Galiza.


 


A grande dispersão geográfica do seu culto tem sido explicada por a palavra “navia” significar “água corrente”, sendo esta um bem essencial para os homens, susceptível de veneração em muitos lugares.


 


De qualquer forma, apenas são conhecidas três epígrafes dedicadas a esta deusa, no actual território português.


 


Turiácu


 


É identificado como uma divindade dos Grovios, povo que habitou o actual Entre-Douro-e-Minho, constituindo um ramo dos Bracari.


 


O  nome será céltico


 


Desconhecem-se os atributos da divindade, muito embora haja quem coloque como hipótese tratar-se de uma divindade aquática.


 


            5- Breves notas sobre símbolos:


 


É, certamente, veleidade da nossa parte comentar a simbologia integrada no ritual a que assistimos.


 


No entanto, por nos parecer que neste rito se evidenciaram alguns símbolos bens distintos, com significados potenciais diversificados, na dependência do contexto em que surjam inseridos, decidimos arriscar algumas curtas notas, baseadas exclusivamente em bibliografia de referência sobre o tema[iv].


 


Azul


 


Como vimos, uma tira de pano azul foi colocada marcando o Este.


 


O azul é referenciado como a cor mais profunda e imaterial, mas também como a mais fria e pura.


 


Relacionamos instintivamente esta cor com a água. No entanto, significa também o céu, de forma bastante intensa e directa.


 


Manifesta as hierogamias (casamento sagrado, entre um deus e um homem ou uma mulher) ou as rivalidades entre o céu e a terra, o mesmo acontecendo com o vermelho e o amarelo (ocre), adiante referidos.


 


Amarelo


 


O amarelo foi colocado na direcção do Sul.


 


É a cor mais quente, ardente e expansiva.


 


De maneira bastante óbvia, relaciona-se facilmente com o Sol e seus raios.


 


Se o associarmos ao azul, como um casal, será o amarelo a cor masculina.


 


Verde


 


No círculo ritual o verde assinalou o Oeste.


 


É o resultado da junção do azul e do amarelo. No entanto, faz alternância com o vermelho, por exemplo uma rosa que floresce entre o verde. É equidistante entre o azul celeste e o vermelho infernal, mediando entre o frio e o calor.


 


Relaciona-se também, como para todos será óbvio, com o reino vegetal.


 


Vermelho


 


No círculo ritual ficou assinalando o Norte, mas em conjunto com o verde.


 


É a cor do fogo e do sangue, símbolo do princípio da vida.


 


Também é a cor do conhecimento oculto, iniciático.


 


Sol


 


O Sol é considerado uma manifestação da divindade, quando não é o deus, ele mesmo.


 


É a fonte da luz, do calor e da vida, simbolizando os seus raios as influências celestes ou espirituais.


 


Também surge como símbolo da ressurreição e da imortalidade.


 


Na oposição Sol – Lua encontra-se, geralmente, o signo da dualidade macho – fêmea. 


 


Quatro elementos


 


São, como sabemos, a água, o fogo, o ar e a terra, desde, pelo menos, a antiguidade grega, pela palavra dos seus filósofos.


 


Corresponde à manifestação dos princípios naturais primordiais, mas também à ordem quaternária da natureza, por exemplo ao nível das estações do ano ou das etapas da vida do homem.


 


Fogo


 


O fogo é entendido em diversas culturas como purificador e regenerador.


 


Assim é, nomeadamente, nas culturas agrárias, pois os incêndios dos campos significam a sua regeneração.


 


A purificação pelo fogo é vulgarmente complementar à alcançada através da água. Neste caso a purificação resulta da compreensão, em termos espirituais, no sentido de se alcançar a verdade.


 


Significa, também, a iluminação, pelo que se associa a ritos iniciáticos, como vector da morte e do renascimento.


 


Relaciona-se também, de forma que nos parece bastante óbvia, com o Sol, simbolizando a acção fecundadora, purificadora e iluminadora.


 


Água


 


A simbologia associada à água reporta-se à fonte de vida, meio de purificação e de regeneração.


 


É um símbolo da pureza passiva, mas também um meio e local de revelação.


 


Tem uma consonância feminina, sensual e maternal.


 


Como elemento purificador, como se disse em contraponto com o fogo, significa a purificação do desejo, no sentido de se alcançar a bondade.


 


Terra


 


É um símbolo de fecundidade e de regeneração.


 


Por oposição ao céu, a terra assume um aspecto feminino, como princípio passivo.


 


Em contraponto com a água, símbolo da massa indiferenciada, a terra incorpora a semente da diferença.


 


Corno


 


Símbolo da potência, tem um sentido de eminência e de elevação.


 


Dependendo do animal, pode ser um símbolo feminino e lunar (touro) ou masculino e solar (carneiro).


 


Nas tradições célticas o corno simboliza uma força defensiva, tal como um escudo.


 


Vinho


 


Associado ao sangue, pela sua cor, o vinho é muitas vezes entendido como uma bebida da vida ou da imortalidade.


 


Também surge como símbolo do conhecimento e da iniciação.


 


Estes sentidos simbólicos não são, necessariamente, os que o sacerdote pagão considerará, mas são certamente vectores culturais relevantes para a compreensão do ritual a que assistimos, nos quais se encontram presentes de forma distinta.


 


Aqui fica, ao vosso dispor, a nossa perspectiva sobre o ritual ibérico realizado em Foz Côa, a que assistimos enquanto investigadores.


 


                                                                                  Lisboa, 22 de Novembro de 2008


 

           






[i] António Quadros (organização), “À procura da Verdade Oculta – textos filosóficos e esotéricos”, 2ª Edição, Publicações Europa-América, Lisboa, 1989.



[ii] Luís Luís, “Arte rupestre e ocupação humana no vale do Côa – Balanço da investigação do Parque Arqueológico do Vale do Côa”, Outubro de 2004.



[iii] J. Leite de Vasconcelos “Religiões da Lusitânia”, 3 volumes, reimpressão facsimilada da 1ª Edição; José D’Encarnação “Divindades indígenas sob o domínio romano em Portugal – subsídios para o seu estudo”, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1975; Maurício Pastor Muñoz “Viriato”, 1ª Edição, A Esfera dos Livros, Lisboa, Setembro de 2006.



[iv] Chevalier, Jean e Gheerbrant, Alain; “Dictionaire des Symboles”, Robert Laffont, Paris, 1982.