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Vida extraterrestre – Ciência e pseudo - ciência


1- O interesse do público e a importância para a ciência da questão da vida extraterrestre

Afastado da primeira linha das preocupações do público e da atenção da comunicação social durante cerca de uma década, o tema da vida extraterrestre regressou à ribalta a meados dos anos 90 do século passado, fenómeno para o qual muito contribuíram algumas séries televisivas e filmes de sucesso, tais como os “Ficheiros secretos” e “O dia da independência”.

De facto, após se ter mantido nas primeiras linhas de destaque no âmbito da cultura popular, ao menos no ocidente, desde o final da Segunda Guerra Mundial e até ao anos setenta do século XX – com particular pujança em Portugal, no especial contexto do pós- 25 de Abril – os extraterrestres e os OVNI resistiram mal à década de 80 e aos inícios da década de 90.

Para muitos, o obscurecimento desta temática poderá explicar-se pelo clima de euforia económica vivida no ocidente durante os anos 80, durante os quais marcou pontos um certo materialismo, mas devem também apresentar-se como causas justificativas o decréscimo de interesse público pela exploração espacial, na ressaca das missões lunares, e o cansaço do público quanto à ovnilogia, em consequência das repetidas (e vãs) promessas de alguns investigadores no sentido de que o “contacto” estaria para próximo.

A situação actual é bem diferente , somando-se às iniciativas de ficção já referidas um novo entusiasmo pela exploração do planeta Marte, em resultado de novas descobertas quanto à possibilidade de no passado ali terem existido forma rudimentares de vida, bem como o facto dos investigadores do fenómeno OVNI, na Europa, terem realizado um profundo exame de consciência, passando a tratar essa problemática sem qualquer vínculo- diria mesmo com cautelosa distância- em relação à questão de haver ou não vida noutros planetas.

Acresce, igualmente, a divulgação dos resultados científicos – sérios e bem objectivos, relativamente à identificação de planetas extra-solares, cujo número – como seria de esperar, por simples recurso à lógica – não para de crescer desde que os cientista afinaram os métodos de detecção remota, não visual, da presença gravitacional destes corpos celestes.

A questão da vida extraterrestre coloca-se, da perspectiva em que nos colocamos actualmente, em três níveis diversos, que cumpre elencar e distinguir desde já.

Em primeiro lugar, no plano científico, onde, pese embora ausência de evidências suficientemente vastas para que se considere um caso encerrado, julgamos ser hoje praticamente indisputável que haverá vida extraterrestre.

Em segundo lugar, numa vertente mítica, diria mesmo milenarista, em que os extraterrestres surgem ora numa postura messiânica, como arautos do advento de uma Era de Ouro da Humanidade, ora como executores de uma espécie de juízo final cósmico. O folclore associado ao fenómeno OVNI é um evidente factor de amplificação desta vertente do problema.

Em terceiro lugar, num enquadramento mediático, isto é, como instrumento de modas geradas periodicamente junto da opinião pública, quer em termos jornalísticos, quer pela via da ficção. De facto, os extraterrestres constituem não só um dos alimentos da chamada “silly season”, que a comunicação social atravessa em cada Verão, como também, num plano bem mais vasto, têm servido de pano de fundo condutor para autênticas operações de marketing (ou mesmo de merchandising) à escala global.

O último nível de análise tem repercussões sérias na investigação em ovnilogia, por gerar vagas de OVNI ou, talvez mais acertadamente, de OVI (objectos voadores identificados), isto é, acréscimos repentinos do número de casos relatados, sendo certo que os investigadores têm nessas época um trabalho acrescido sem correspondência na obtenção de novos dados cientificamente válidos, pois o que se encontra com abundância são erros de interpretação de fenómenos conhecidos, lado a lado com diversos tipos de fraude.

Estamos, aliás, cada vez mais convencido que os estímulos decorrentes dos media são a verdadeira explicação para o chamado fenómeno das “vagas”, estudado designadamente por Allen Hynek, que sustentou a tese de que a uma verdadeira vaga de OVNI se segue, por efeito multiplicador junto do público (alimentado pela imprensa, diríamos nós), uma vaga de OVI.

Ao menos em Portugal, desde que realizamos no GIFI investigação de campo em ovnilogia, ou seja, desde 1979, os fenómenos de indução do público apresentam-se com clara origem nos media, aqui incluindo, numa forma global, a comunicação social e as obras de ficção.

Quando ao mito dos extraterrestres, solidamente implantado na cultura ocidental após a Segunda Guerra Mundial, consideramos inviável estudar esta problemática, em termos científicos e objectivos, de outra forma que não seja a da psicologia e psico-sociologia.

Por outras palavras, tão claras quanto possível, não nos parece existir factos passíveis de investigação, antes um mito, associados a diversos fenómenos de cultura popular, que merecem ser tomados, em si próprios, como objecto de investigação, para melhor conhecimento do Homem e da vida em sociedade da viragem do século XX para o século XXI.

Na verdade, visto que estamos em presença de um sistema de crenças, não é a fé em si que pode ser discutida, mas tão só o contexto de geração, de evolução e de caracterização, num dado momento histórico, de uma crença associada aos extraterrestres, bem como, naturalmente, a tipificação dos agrupamentos humanos que cultivem essa mesma fé.

Não faz qualquer sentido utilizar dados científicos sobre a hipótese da vida extraterrestre para discutir as idiossincrasias, por exemplo, da “Non Siamo Soli”, organização internacional que pode, isso sim, ser estudada no âmbito marginal da ovnilogia que é o “contactismo”, neste caso com epicentro na figura de Eugenio Siragusa.

Infelizmente, temos na nossa civilização um terrível vício intelectual, que é o de polemizar crenças, de forma pretensamente científica, utilizando como referência o sistema de crenças convencional, que contínua a ser, no caso português, o catolicismo romano. Por isso mesmo, acabamos muitas vezes, ainda que inconscientemente, por atribuir maior validade a religiões reveladas, como a nossa, e a desvalorizar cultos e formas religiosas ditas primitivas, quando na verdade o estudo das religiões e dos sistemas de crença não pode legitimar qualificações subjectivas dos objectos de estudo.

Assim sendo, o estudo desta vertente do problema dos extraterrestres de nada aproveita para o problema de fundo, isto é, de haver ou não vida fora do nosso planeta, pois essa questão só pode ser respondida pela via científica directa.

É, portanto, no primeiro dos âmbitos de análise que enunciei que iremos centrar a nossa exposição, sem prejuízo de referências laterais de aprofundamento dos sub-temas que acabámos de enunciar.

Para além das referências da história longínqua, as interrogações quanto à possibilidade de existência de vida fora do nosso planeta ressurgiram, logicamente, com o advento do heliocentrismo, pois, de facto, são as teorias de Copérnico que afastam do mundo científico a submissão ao princípio, de origem anterior mas sedimentado pelo cristianismo, de que a Terra seria o centro do Universo e de que, em consequência, a raça humana como expoente- aparente- da evolução da vida no nosso planeta, poderia ser qualificada como a rainha da criação, em termos Universais.

Ora se não estamos no centro do Universo, mas sim num dos arrabaldes da nossa galáxia, a qual não é mais que um grão de areia no cosmos, não pode deixar de fazer todo o sentido interrogar-mo-nos seriamente quanto à possibilidade de noutros pontos do Universo se ter gerado vida e, particularmente, de ter evoluído vida inteligente.

De acordo com a investigação desenvolvida no nosso planeta, não existem limites rígidos, muito menos apertados, para as condições em que podem sobreviver as formas de vida simples, seja a temperatura, seja a pressão atmosférica, seja ainda a existência ou inexistência de oxigénio.

Assim sendo, neste nível rudimentar do desenvolvimento de organismos não há que questionar seriamente se a Vida depende de condições semelhantes às registadas, em média, no planeta Terra, podendo portanto admitir-se com facilidade que possa surgir fora do nosso planeta.

Pelo contrário, as formas de vida superiores que conhecemos, também por vezes designadas como formas de vida activas, apenas conseguem sobreviver em limites relativamente apertados de condições externas.

Na medida em que esses limites têm sido identificados com o das variações normais no nosso planeta, como é exemplo o da temperatura (de menos 60 graus célsius a mais 60 graus célsius), podemos interrogar-nos se não se tratarão tão só dos limites que no nosso planeta as formas de vida superior se viram forçadas a suportar.

Consequentemente, não constitui um argumento lógico indiscutível que a Vida superior dependa necessariamente de condições semelhantes às que nos proporciona o nosso mundo, pois noutros locais poderá ter evoluído para a adaptação a condições externas totalmente diferentes.

Aliás, o desenvolvimento das investigações acerca da Vida nas profundezas oceânicas, em particular junto às fumarolas submarinas, tem ampliado consideravelmente os limites nos quais a ciência verifica poderem existir as formas de vida superiores, nomeadamente sem qualquer tipo de recurso à luz solar para obtenção da energia necessária à vida.

Mais ainda, os cientistas admitem que não existe qualquer fundamento válido para sustentar que as reacções químicas típicas dos organismos existentes no nosso planeta representam o único ponto de partida possível para a existência de Vida.

A maior parte das teorizações científicas sobre a questão da vida extraterrestres, em todo o caso, continuam a mostrar-se excessivamente dependentes da discussão quanto à possibilidade e prova da geração noutras partes do cosmos de condições químicas e ambientais similares às que temos na Terra.

Em nossa opinião tal limitação de raciocínio tem uma justificação filosófica, mas do que científica, centrada no conceito de Vida que somos capazes de entender.

Uma cautela, no entanto: há um fundamento de base, genérico, para esta fórmula de raciocínio, centrada no facto de que é entendimento pacifico nos nossos dias de que o Universo está, todo ele, constituído por elementos idênticos aos que compõem o nosso sistema solar, pelo que existe objectivamente um elemento de similitude global que permite pressupor possibilidades de semelhança entre a nossa civilização e a dos nossos hipotéticos vizinhos extraterrestres.

O drama científico é o de nesta matéria termos apenas um único exemplo de referência: a vida na Terra. Joachim Illies, um biólogo alemão, exemplifica com clareza a situação, lembrando que se Newton tivesse visto cair uma única maçã jamais poderia ter descoberto as leis da queda dos corpos, pelo que a determinação objectiva das leis do surgimento e evolução da Vida, em particular no que se refere ao surgimento da inteligência exigiria, ao menos, que os cientistas pudessem trabalhar com dois exemplos, o da Terra e um outro, posto o que as deduções e induções tendo em vista a determinação da possibilidade e características de uma terceira forma de vida, de uma quarta e assim por diante, de imediato se tornariam viáveis.

Supomos que o grande desafio para a História das Ideias que a vida extraterrestre nos coloca é exactamente o de sermos ou não capazes de admitir uma fórmula mais ampla do conceito de Vida.

Para além da questão da existência de vida extraterrestre, esta matéria suscita igualmente o problema de um eventual contacto com uma civilização extraterrestre.

O contacto pressupõe mútuo reconhecimento e o estabelecimento de uma forma de transmissão de informação. Estas duas condicionantes parecem-me amplamente suficientes para nos apercebermos das tremendas dificuldades do estabelecimento de uma relação com hipotéticos extraterrestres desenvolvidos.

No momento actual, a fórmula de contacto considerada como mais viável baseia-se na utilização da lógica matemática, utilizando-a como forma de construir uma linguagem inteligível em qualquer parte do Universo. A esse meio têm recorrido, por exemplo, os radioastrónomos do projecto SETI (acrónimo de search for extraterrestrial inteligence, pesquisa da vida inteligente extraterrestre), no envio de mensagens para o cosmos, sendo no entanto certo que o radio rastreamento do espaço, que decorre há pelo menos vinte anos, não teve ainda como efeito a detecção de qualquer sinal rádio qualificável como inteligente.

Esse pretendido contacto, de qualquer tipo, representaria necessariamente uma revolução tão drástica no nosso contexto civilizacional, que implicaria, sem margem para dúvidas, o fim da civilização tal como actualmente a conhecemos.

Talvez seja este o argumento global e definitivo para colocar fora de qualquer possibilidade as teorias conspiratórias vigentes na ovnilogia actual não europeia, particularmente nos EUA, uma das componentes míticas mais fortes do fenómeno OVNI, associadas, a título de exemplo, ao caso de Roswell, divulgado em Portugal de forma ampla a propósito das (pseudo) imagens da autópsia de um extraterrestre.

Os governantes, militares ou seja lá quem for que tivessem tomado contacto directo e inequívoco com extraterrestres, não poderiam ter deixado de modificar-se profundamente no campo individual da sua consciência, razão pela qual as suas atitudes posteriores, fossem elas quais fossem, não poderiam certamente resultar em meros actos de ocultação dos factos ocorridos, agindo portanto de forma mesquinha e, em boa verdade, inútil.

Em conclusão, devemos admitir como amplamente provável que exista vida noutras partes do Universo, que poderá inclusivamente ser abundante e ter atingido formas civilizacionais que permitam um dia um contacto.

No entanto, estamos a dar os primeiros passos nesta investigação, pelo dispomos principalmente de argumentos lógicos globais, ao mesmo tempo que carecemos em absoluto de provas factuais que possibilitem deter certezas mínimas.

Quanto ao fenómeno OVNI, mais não seja para garantia da objectividade do trabalho de investigação nesta área, deve ser tratado independentemente da questão da vida extraterrestre, na medida em que se trata acima de tudo de uma fenomenologia ainda mal conhecida, onde devemos preocupar-nos principalmente com o desenvolvimento de métodos de estudo adequados que nos permitam ir mais longe no seu conhecimento.

2- Ovnilogia- É possível realizar investigação científica acerca dos OVNI ou apenas podemos tentar realizar inquéritos caracterizados pela objectividade ? Alguns exemplos

Concluindo nós pela necessidade de separar cautelosamente, desde logo tendo em vista garantir a objectividade da investigação, o estudo da vida extraterrestre e a investigação acerca do OVNI, convirá esclarecer que resultados temos obtido na análise de casos concretos em Portugal e, igualmente, dar a conhecer o metodologia de trabalho a que recorremos.