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De Outros Mundos – Portugueses e Extraterrestres no século XX


Joaquim Fernandes (org.)


Planeta Editora, Lisboa, Outubro de 2009


-síntese crítica -




Muito embora já tivéssemos visto referências à publicação desta obra na comunicação social, foi um e-mail de Joaquim Fernandes, recebido a 2 de Janeiro de 2010, e a necessidade de ao mesmo dar resposta adequada que acabou por motivar, decisivamente, que debruçássemos a nossa atenção sobre o livro.

A incumbência da aquisição e análise da obra ficou imediatamente – e como é habitual … - a meu cargo, por indicação rápida e unânime de todos quantos, no GIFI, comentaram a forma desejável de dar resposta ao acima referido e-mail.

Depois, na reunião de 23 de Janeiro de 2010, na Lapa dos Dinheiros (Seia), o Alberto Santos sublinhou a questão, tão do seu agrado, da integração científica deste tipo de fenómenos, questionando até que ponto o GIFI não deveria também sistematizar e compilar os seus dossier acerca do fenómeno OVNI, considerando que a obra em apreço se reporta a cerca de 700 casos constantes do espólio do (agora) CTEC – Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência, da Universidade Fernando Pessoa (Porto).

Uma primeira conclusão positiva: o livro de que Joaquim Fernandes é organizador veio motivar uma renovação do debate acerca da ovnilogia no seio do GIFI, o que, devo dizer, muito me agrada.

Vamos, então, aos resultados desta empreitada.


Não foi fácil adquirir o livro, pois em visita a uma ou outra livraria parecia não haver rasto do mesmo. Mea culpa. Há que pensar como o faz o pessoal ao serviço das livrarias: acabei por encontrá-lo numa grande livraria de Lisboa … na secção sobre esoterismo !

Numa primeira leitura, confessadamente diagonal, tanto mais que estamos perante um volume de 400 páginas, merecedor de uma posterior atenção aprofundada, podemos dizer que se trata claramente da mais importante obra de referência sobre o fenómeno OVNI publicada em Portugal, por investigadores portugueses, desde os anos 70 do século passado.

A obra assume uma linguagem científica, pontuada em 19 artigos de diversos autores oriundos do meio académico, de diversas áreas do saber, aqui congregados através do referido CTEC, que, como se disse, também se encontra integrado no ambiente universitário.

Os trabalhos aqui publicados baseiam-se, essencialmente, no espólio a cargo do CTEC que integra cerca de “…700 registos de observação de fenómenos celestes e respectivas descrições.”, reunidos nas três últimas décadas do século XX pelos CEAFI – Centro de Estudos Astronómicos e Fenómenos Insólitos (1973 – 1982), CNIFO – Comissão Nacional de Investigação do Fenómeno OVNI (1982 – 1993) e SPEC – Sociedade Portuguesa de Exploração Científica (1997 – 2001).

Numa resenha necessariamente telegráfica, são os seguintes os artigos integrados neste volume:

1- “O imaginário em Portugal – avaliação quantitativa e iconográfica (1908-2000)” António Durval, Joaquim Fernandes, José Carlos Martins e Mário Neves Silva:

Resenha estatística sobre o espólio de registos de investigação a cargo do CTEC.

Nada consta sobre a qualificação de cada observação, após investigação, assunto a que regressaremos na resenha final.

2- “A análise fotográfica de Objectos Aéreos Insólitos” Raul Berenguel:

Artigo técnico acerca das formas de análise e interpretação de registos fotográficos, analógicos e digitais, tendo vista a verificação da eventual manipulação das fotografias, mas também no que se refere à apreciação crítica do seu conteúdo (por exemplo, a verificação da hora através das sombras projectadas pelos elementos retratados).

O autor foca, ainda, as fotografias obtidas no famoso caso de Alfena (Valongo), a 10 de Setembro de 1991, e as situações em que os objectos surgem retratados em fotografias sem que, no momento em que foram tiradas, as pessoas se tivessem apercebido da presença desses mesmos objectos.

Raul Berenguel foi o autor do livro acerca do (suposto) organismo microscópico extra-terrestre que teria sido identificado num fragmento de fibralvina (alegadamente) recolhido nos anos 50 em Évora, após a observação de OVNI. Tais alegações vieram a ser totalmente desmentidas, sendo que tal facto conduziu à extinção do CEAFI (pelo menos foi essa percepção que ficou na altura, ainda que injustamente) .

3- “Criptotecnologia e imaginário OVNI / ET” Fernando Fernandes:

Interessante artigo no qual se analise e compara o imaginário da ficção científica norte-americana, entre 1930 e 1950, com a tipologia dos relatos associados ao fenómeno OVNI, que foram surgindo posteriormente, com um desfasamento de cerca de 20 anos.

4- “OVNI / ET: representações gráficas feitas por crianças e jovens” Mário Neves Silva:

Sendo o objecto de estudo claramente representado pelo título do artigo, as conclusões apresentadas afiguram-se algo frustrantes, pois acaba por se remeter apenas para a resenha – acrítica – efectuada, por referência à importância de se estudar o fenómeno OVNI, enquanto fenómeno humano, de uma perspectiva social e psicológica.

5- “Etnografia breve do contactismo português – o ex(tra)-territorialismo como modo de vida” Paulo Castro Seixas:

Sendo ao autor antropólogo, é da perspectiva dessa ciência social que se faz aqui a análise de casos portugueses de contactismo (contacto com extra-terrestres no qual o sujeito surge como eleito ou intermediário privilegiado dos alienígenas).

6- “Comunicação com seres alienígenas: uma abordagem exo-semiótica” Pedro Barbosa:

De autoria de um licenciado em filologia românica e doutor em ciências da comunicação, debate-se aqui a problemática da linguagem, no âmbito dos (pretendidos) contactos entre humanos e extra-terrestres.

No que se refere à casuística, são analisados e debatidos alguns casos nos quais as testemunhas se reportam a concretas línguas extra-terrestres, bem como quatro casos constantes do espólio a cargo do CTEC.

7- “”Memórias” de experiências de contacto e abdução – aspectos metodológicos sob hipnose clínica” Mário Simões e Mário Resende:

Os autores são, respectivamente, um médico doutorado em psiquiatria e um psicólogo clínico, reportando-se no artigo às questões metodológicas referentes ao recurso à hipnose clínica em casos de contactismo e de rapto por extra-terrestres (recuso-me a usar o abstruso termo “abdução”).

Na linha de John Mack e outros escrevem os autores, em conclusão:

“Aceita-se o material que emerge sem o negar, confirmar ou reforçar, tendo em conta o contexto em que surge, isto é, sob um estado modificado de consciência. Como profissionais, não nos pronunciamos sobre a verdade objectiva dos fenómenos, dado tratar-se de uma vivência subjectiva.”.

Digo eu: excelente para a psiquiatria e psicologia, positivamente inútil para a ovnilogia.

8- “Observações de humanóides e outras entidades atípicas” Cassiano José Monteiro:

Resenha de 21 casos do espólio mantido pelo CTEC, onde se reporta a observação de extra-terrestres, datados de 1922 a 1980 (!).

9- “Abduções em Portugal” Gilda Moura:

A investigadora e psicóloga clínica brasileira, que também se integra na linha de John Mack, refere-se aqui a dois casos portugueses, anteriormente divulgados pela APO – Associação de Pesquisa OVNI.

10- “Luzes misteriosas ou mitologia moderna ?” Maria António Jardim:

A tese constante do artigo resume-se, porventura, na seguinte frase “Deste modo, a imaginação é a realidade porque nós somos imaginação!”.

11- “Crenças e representações dos portugueses acerca dos fenómenos OVNI e ET” Nelson Lima Santos:

Descrição e análise de um inquérito realizado a 244 portugueses, da área metropolitana do Porto, relativamente à temática referida no título do artigo.

O inquérito será recente, mas não consegui entender exactamente em que data terá sido realizado.

12- “Olha-nos, segue-nos e verás algo nas estrelas: apontamentos sobre leituras de “experiências de avistamento” em chave religiosa” Teresa Martinho Toldy:

Sendo a autora doutorada em teologia, o artigo aborda visões do fenómeno OVNI do ponto de vista da crença religiosa, no âmbito de casos portugueses.

13- “A filosofia dos OVNI” Manuel Curado:

O artigo pode (eventualmente) sintetizar-se através dos seus trechos inicial e final.

“Os filósofos nunca se interessaram por objectos voadores não identificados (OVNI). Em mais de vinte e cinco séculos de pensamento sistemático sobre todas as áreas da experiência humana, este assunto não mereceu grande reflexão.”

“… . Se os alienígenas não existirem, teremos de os inventar. De facto, já fazemos isso há muito tempo e com muito gosto.”

14- “O fenómeno OVNI / ET na comunicação de massa” Aníbal Oliveira:

A ovnilogia na comunicação de massa, nomeadamente na publicidade, na cultura e no discurso público.

15- “Virtualidade cosmogónica de um “contactado” na Serra da Gardunha” A. Fernando Ribeiro:

Mais um estudo de um antropólogo, neste caso acerca do famoso “contactado” da Gardunha, Américo dos Santos Duarte.

16- “O planeta Marte em Portugal – quando os marcianos eram verdes” Joaquim Fernandes:

Marte e os marcianos em Portugal, de 1940 à década de 90.

17- “Meteoritos e OVNIS” José Manuel Sottomayor:

Interessante artigo acerca dos casos registados em Portugal nos quais os meteoritos foram confundidos com OVNI.

O que aqui se refere corresponde fortemente à experiência de investigação do GIFI e a conclusões de trabalho que fomos sedimentando desde o primeiro caso que investigámos no terreno, o famoso “15 de Julho de 1979”.

18- “Os OVNI: efeitos secundários e propulsão” Alexandre Alves Martins:

O autor é doutorado em engenheira física e mestre em física, referindo-se ao que poderíamos sintetizar como efeitos de segundo grau associados a observações de OVNI incluídas no acervo a cargo do CTEC.

O artigo torna-se especialmente relevante por listar a explicação científica desses efeitos físicos associados à observação de OVNI, procurando relacioná-los com a propulsão desses engenhos. Concluí pela relação da modulação pulsada de microondas com parte significativo dos aludidos efeitos.

19- “OVNI, meteoros e fenómenos luminosos atmosféricos de origem telúrica” José Fernando Monteiro:

Mais um artigo intimamente relacionado com temática ovnilógica, propriamente dita.

Discorre-se aqui acerca da relação que se pode estabelecer entre a observação de supostos OVNI com fenómenos atmosféricos, tremores de terra e neotectónica (actividade telúrica, sem relação com sismos).

Manifestamente, Joaquim Fernandes faz desembocar nesta obra um esforço persistente e, diga-se, frutuoso no que se refere à integração do fenómeno OVNI pelas ciências humanos, no âmbito académico, em particular na psicologia, sociologia e antropologia, mas também com interessantes incursões noutras áreas do saber, tais como a comunicação social, a teologia e a linguística.

Está em causa, nesta vertente, uma das dinâmicas mais evidentes e, diria mesmo, hoje em dia menos controversa, relativamente aos OVNI: trata-se de um fenómeno humano, antropológica e socialmente relevante, enquadrável na segunda metade do século XX, especialmente entre o final dos anos 40 e o início dos anos 80.

Os OVNI e os extraterrestres são, portanto, uma temática abordável cientificamente no quadro das ciências humanas, como temos vindo a defender, no GIFI, há décadas.

Outra coisa é o fenómeno OVNI enquanto realidade física, muito difícil de investigar de forma científica.

Neste âmbito, que consideramos o da ovnilogia propriamente dita, o livro acaba por desiludir.

Nada de relevante nos é dito acerca do acervo mantido pelo CTEC, de um ponto de vista científico.

Quanto casos são qualificáveis como inexplicados ? Quantas fraudes ali se encontram e fundamentadas em quê ? Quantos erros de interpretação consta do acervo e relacionados com que factos ou fenómenos integrados cientificamente ?

Qual o valor específico de cada dossier de investigação ? A metodologia foi sempre igual ? Que monitorização por pares e que controle crítico foi realizado relativamente a cada dossier, por forma a que possamos hoje utilizar os dados dele constantes como cientificamente relevantes, de um ponto de vista objectivo ?

O GIFI tem em dossier 52 casos de OVNI (uma meia dúzia dos quais apenas registados, sem investigação que mereça minimamente esse nome), datados de Julho de 1979 a Outubro de 2008.

Desses, apenas uns 5 casos estão qualificados como inexplicados, após investigação que consideramos minimamente válida, em termos científicos. Se formos mais exigentes, restam 2 ou 3 com essa qualificação.

Faria sentido fazermos resenhas acerca deste acervo, sem traçar esta essencial distinção ?

Queremos que não.

Já agora, repare-se que há muitos anos que não registamos sistematicamente referências a supostas observações que não tenham um mínimo de plausibilidade inicial, para efeitos deste de investigação.

Assim sendo, não é correcto dizer-se que o nosso acervo integra cerca de 10% de casos não explicados. Estamos certos de que a média estatísticas de casos inexplicados, perante o conjunto dos relatos existentes, é bem menor, inferior a 5% do meu ponto de vista.

Mas regressemos à análise crítica do livro. Em 19 artigos, apenas 3 ou 4 contêm matéria directamente relevante para o estudo do fenómeno OVNI, enquanto realidade física.

Consta dessa minoria alguma informação e reflexões que consideramos inovadoras, potenciando dessa forma estudos futuros. No restante, adiantam-se conclusões com as quais concordamos, no essencial, por corresponderem aos resultados que alcançámos na nossa própria investigação.

Mas continuam a faltar respostas ou, sequer, sugestões para a seguinte pergunta: e numa perspectiva nova, que se baseie, mas que transcenda, a que caracterizou a investigação no século XX, que futuro tem a ovnilogia, em pleno século XXI ?

Lisboa, 7 de Fevereiro de 2010

Pedro Basto de Almeida


1 Curiosamente, numa curta busca na Internet não encontrei qualquer referência directa, em páginas portuguesas, a tal assunto. De qualquer forma, para além do que consta do arquivo do GIFI, pode ler-se no site do “El Pais” uma notícia de 1978 sobre a divulgação do (suposto) achado em: http://www.elpais.com/articulo/sociedad/PORTUGAL/ser/vivo/extraterrestre/capturado/estudiado/hace/dieciocho/anos/elpepisoc/19781013elpepisoc_15/Tes/