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Magia em Portugal – passado e presente

1- Notas para um conceito de Magia

A palavra “magia” desperta nas nossas mentes ocidentais do início do século XXI um conjunto, quase-anárquico, de referenciais, da bruxa do meio rural aos feiticeiros dos contos para crianças, do ilusionista mediático aos sofisticados neo-paganistas, do espectador da “magia do cinema” aos fiéis dos cultos sincréticos afro-brasileiros, do esoterista que procura tornar-se o “Homem-Deus” ao necessitado que se encomenda ao Criador através de “ex-votos”.

É, de facto, muito difícil encontrar uma definição final e absoluta de magia. Talvez seja até melhor assim, pois parece que não haverá apenas uma magia, mas sim várias formas de culto, ritual, religião, espiritualidade, esoterismo, ocultismo que poderemos enquadrar ou cruzar com esta expressão.

Devemos, de toda a forma, adiantar algumas pistas.

Refere Mircea Eliade que, no âmbito do Zoroastrismo, os Magos eram a “Classe de sacerdotes dos antigos Medos. Presidiam aos sacrifícios e expunham os cadáveres às aves de rapina e às intempéries. No mundo helenístico os Magos terão a reputação de serem depositários de uma sabedoria oculta.”.

Para P. G. Maxwell-Stuart, numa tradução livre da nossa lavra, magia pode ser definida, de forma sumária como a “crença em que os seres humanos são capazes de controlar, coagir e manipular as forças ocultas da criação, quaisquer que estas sejam, através de técnicas rituais.” , sublinhando ainda este autor que os três principais objectivos da magia são “contactar forças superiores, sejam estas divinas, naturais ou demoníacas; exercer poder para além do que as suas capacidades naturais poderiam usualmente possibilitar; e usar esse poder tanto em seu próprio benefício, como para benefício de outros ou ainda para satisfazer um impulso maligno, seja este próprio ou emanado de outra pessoa.”.

Na colectânea de textos organizada pelo autor que acabámos de citar, é apresentado um excerto de uma obra do jesuíta e inquisidor português Benito Pereira (numa obra de 1591, “Adversus Fallaces et Supertitiosas Artes”), na qual este distingue a “Magia Natural, na qual maravilhas são criadas pelos artifícios individuais de certas pessoas, que fazem uso de coisas naturais.” e a “Magia Não-Natural que invoca espíritos maus e usa o seu poder para as suas operações” a qual pode ser subdividida em “Teurgia, Goetia e Necromancia”.

Ainda na mesma obra , o compilador dos textos assiná-la, a nosso ver correctamente, que “A feitiçaria é uma forma de magia e as feiticeiras são quem executa a feitiçaria.. Repare-se, feitiçaria no sentido da palavra inglesa “witchcraft”, que nos remete para a actualmente tão na moda “wicca”.

Como voltaremos a referir a “wicca”, a propósitos dos nosso trabalhos de campo, valerá a pena sumariar que esta particular forma de neo-paganismo pretende fazer reviver o que teria sido a “Antiga Religião” do ocidente, dirigida à adoração da Deusa, ao respeito e à comunhão com o nosso planeta e ao recurso às forças naturais, dos mais variados níveis, por intermédio de rituais e de actos mágicos .

Este movimento surge no final da primeira metade do século XX, pela iniciativa de vários autores que sustentavam que essa antiga religião teria sobrevivido em Inglaterra até à “caça às bruxas” dos séculos XVII e XVIII, tendo algumas reminiscências perdurado, posteriormente, em termos que possibilitariam o seu ressurgimento.

Um dos cultores deste (novo) advento da “witchcraft” foi Gerald Gardner, que parece ter deliberadamente forjado documentação apócrifa para justificar as suas teses acerca dos últimos “conventos” britânicos de feiticeiras, bem como se terá amplamente dedicado a cruzar as tradições paganistas historicamente fundamentadas com os ensinamentos dos ocultistas ocidentais, para assim actualizar e conferir interesse adicional à sua renovada “wica” ou “wicca” .

Parece também claro que Magia e Kabbalah se encontram intimamente relacionadas, no âmbito do que poderemos definir como o esoterismo ocidental.

A este propósito, sintetiza P. G. Maxwell-Stuart (em nossa tradução livre) “A palavra “Kabbalah” deriva do hebreu qabbalah significando “tradição”. Há várias formas pelas quais pode ser soletrada: “Cabala” é uma outra”. Kabbalah é a técnica de ler e interpretar a Bíblia, especialmente o Pentateuco...” “... também envolve o conceito chave do que é conhecido como a “Árvore da Vida”, uma estrutura simbólica constituída por dez emanações do divino, com dez nomes, atributos, poderes e diversos caminhos entre si, todos expressando uma noção de Deus em mundos ou planos sucessivamente mais elevado. A contemplação destas emanações, ou Sephiroth, conduz não apenas a um maior entendimento da natureza de Deus, que, em contrapartida, conduz o Kabbalista cada vez mais perto de uma visão de Deus ele mesmo, mas também a um mais detalhado conhecimento das diferentes formas nas quais os poderes divinos operam através dos vários mundos. Este conhecimento pode ser utilizado pois os nomes que o sujeito encontra no decurso da sua contemplação são nomes de poder e a habilidade para reconhecer e manipular estes nomes concede uma imensa e potente autoridade à pessoa que tenha dominado esta técnica. A importância da Kabbalah para a magia, em consequência, dificilmente pode ser exageradamente afirmada.”.

Já para William Wynn Westcott , um dos fundadores da Ordem Hermética da Aurora Dourada (Hermetic Order of the Golden Dawn), maçom dos mais ilustres, membro da Sociedade Teosófica e Mago Supremo da SRIA (Societas Rosacruciana in Anglia), “A Alta Magia do verdadeiro rosa-cruz é o conhecimento de como perceber, com os poderes mentais do homem inferior, os reflexos irradiados pelo homem espiritual para guiá-lo e instruí-lo.” ou, em resumo “... a Sabedoria Espiritual é a verdadeira Alta Magia...” .

De forma bem mais sumária e com refinado sentido de humor, Aleister Crowley no seu artigo “The revival of Magick” refere-se à magia – que denomina “Magick” – dizendo que a mesma “... pode ser definida para o nosso presente propósito como a arte de comunicar sem meios óbvios.”

2- Magia em Portugal- Investigação de campo

O dossier do GIFI acerca da prática de rituais mágicos em Portugal tem vindo a ser construído, por vezes com intervalos de tempo alongados, desde 1990.

Temos, actualmente, registados 24 locais onde ocorreram rituais desse tipo, sendo que relativamente a Miramar e à Peninha se verifica uma forte continuidade e perenidade temporal nessas ocorrências.

Quanto a Miramar, não só o GIFI mantém registos de actividade ritual no local entre Janeiro de 1990 e Outubro de 1995, como também essas actividades foram já noticiadas posteriormente na comunicação social e, ainda, dispomos de dados bibliográficos anteriores onde se refere que “De há muito tempo também, infelizmente, a Capela do Senhor da Pedra é centro de actividades das mulheres de virtude que aí vão fazer as suas rezas e devoções.”.

Quanto à Peninha, tivemos notícia da actividade ritual em Julho de 2002, tendo sido verificada directamente a continuidade de vestígios de rituais na capela de São Saturnino desde Setembro de 2002 e até Outubro de 2004, com uma curta descontinuidade em Fevereiro de 2004, em virtude das ruínas da capela se encontrarem encerradas, com indicação da aposição de químicos para desratização.

Para além desses casos, adiante melhor elencados, no âmbito da investigação realizada em Miramar foram-nos referidos mais 4 locais onde os rituais eram (em 1995) realizados com regularidade: Bom Jesus (Braga), Serra do Pilar, Senhora da Saúde (Carvalhos) e São da Serra (Minas do Pejão).

Tipologicamente, os referidos casos podem agrupar-se da seguinte forma:
A) Magia popular e práticas para-religiosas em locais de culto religioso: Miramar, Alvito, Funchal, Peninha (Sintra) e Pitões das Júnias, num total de 5, somando-se os 4 locais adicionais acima indicados ;
B) Magia afro-brasileira: Arraiolos, Ilhas (Arraiolos), Lousado (Famalicão), Louriçal (Pombal), Valverde (Évora), Praia de Paço de Arcos, Monte d’Arcos (Braga) e Fernão Ferro, num total de 7 locais;
C) Profanação e vandalismo em cemitérios ou locais de culto religioso, com eventual relação ao culto dos mortos: Pombal, Janardo (Leiria), Castelo dos Mouros (Sintra), São Domingos de Rana, Viseu, Figueira da Foz, Amieros (Vila da Feira), Numão e litoral alentejano (diversos locais isolados da Diocese de Beja, nomeadamente em Sines e Santiago do Cacém), num total de 9 registos;
D) Crenças locais de carácter pagão ou rituais neo-paganistas (Wicca, Witchcraft): Cromeleque da Herdade dos Almendres (Évora), Peninha (Sintra), num total de 2 registos;
E) Actos isolados: Quinta dos Ingleses (Carcavelos), este envolvendo um homicídio da mulher que se encontrava a praticar o ritual.

Evidentemente que alguns dos aspectos da classificação podem ser objecto de discussão, em particular porque, em muitos casos, poderá ser difícil distinguir a magia tradicional e a afro-brasileira, na medida em que os “profissionais” do sector parecem ter desenvolvido o hábito de cruzar e sobrepor essas influências, bem como as profanações e o vandalismo em cemitérios tanto pode ser apontado a grupos de jovens influenciados por modismo e gostos musicais como ser relacionados com cultos dos mortos e, inclusivamente, com manifestações de verdadeiro satanismo.

Falando de satanismo, poderíamos referir o famoso crime “satânico” de Ílhavo, no qual um jovem músico de uma banda de “black metal” assassinou o pai e mãe, mas de facto não só o caso não se encontra documentado nos nossos dossier, como também o seu efectivo enquadramento em práticas mágicas e de carácter ritual ficou por esclarecer, mesmo no âmbito do julgamento do parricida.

Há muito a investigar no que se refere à magia afro-brasileira, tanto mais que, muito embora a descrição das marcas de vários dos rituais registados se-lhe refira de forma indubitável, não tem sido fácil identificar a finalidade de cada ritual, pois em nenhum dos casos de que dispomos se mostrou possível um enquadramento directo na tipologia constante da bibliografia que possuímos .

Valerá, assim, a pena transcrever um trecho de Mircea Eliade (“Dicionário das religiões”, Dom Quixote, Lisboa, 1993): “ Os cultos afro-brasileiros surgiram por volta de 1850, a partir de elementos de origens diversas, apresentando traços autenticamente africanos, como a possessão por divindades orixás e dança extática. No Nordeste, o culto chama-se Candomblé, no Sudeste, Macumba, mas o Umbanda, com origem no Rio de Janeiro, tornou-se muito popular depois de 1925-30. Interditos no início, os cultos de possessão representam hoje um elemento essencial da vida religiosa no Brasil.”.

É evidente a influência que o crescimento acelerado e relevante da comunidade brasileira em Portugal tem na verificação deste tipo de práticas no nosso país, arriscando-nos a sublinhar que o elo de ligação mais forte no nosso país tem sido, concretamente, o Candomblé, do qual, a título de exemplo, são conhecidos alguns terreiros estabelecidos na margem Sul do Tejo, na área metropolitana de Lisboa.

Em termos geográficos, verificamos o seguinte:
A) Há mais locais registados situados no litoral (15) do que no interior (9), o que, se bem que corresponda à demografia do país, também pode relacionar-se com o carácter de sofisticação, diríamos, de transcendência da cultura mais tradicional que parece associar-se a este tipo de práticas;
B) A maioria dos casos situa-se na área metropolitana ou na região de influência de directa de cinco das maiores cidades do país – Lisboa, Porto, Braga, Coimbra e Leiria -, situando-se parte das restantes directamente ou na zona de influência de duas outras cidades com expressão – Funchal e Évora;
C) Curiosamente, acaba por ser a Norte que se situam a maioria dos casos, em especial nas zonas do Porto – aqui com a particular expressão de Miramar, no contexto dos casos constantes do dossier – e de Braga.


3- Magia em Portugal- Investigação de carácter histórico

Em 1995, no âmbito da recolha de informação e de imagens para efeitos de uma série de reportagens que produzimos para a TVI, tomámos conhecimento da existência de diversos livros sobre esoterismo, alquimia e magia na biblioteca do Convento de Mafra.

De facto, a reportagem em causa era, concretamente, relativa ao passado e presente da alquimia em Portugal, tendo sido o Dr. Manuel Gandra, conhecido cultor da história mítica e do esoterismo, que na altura era historiador da Câmara Municipal de Mafra, quem nos deu a conhecer os referidos livros, após obtenção de autorização para realização da filmagens no local, junto do IPPAR.

Esse autor tem um artigo publicado sobre esta temática, que poderá resultar interessante para os mais curiosos acerca deste assunto específico .

Os volumes em causa são essencialmente dos séculos XVII a XVIII, sendo particularmente curioso o facto de em alguns deles o Santo Ofício e / ou as autoridades religiosas terem aposto a indicação de ser proibida a sua leitura.

Era, portanto, lícito conservar tais livros na biblioteca, mas a sua leitura já constituía uma ofensa à religião vigente !

Bem sabemos como outros obscurantista, nomeadamente do século XX, não hesitaram em lançar os livros que pretendiam proibir para uma qualquer fogueira.

Conservaram-se assim os livros, que se mantêm disponíveis para os investigadores.

Trata-se de um dos projectos de investigação que gostaríamos de vir a concretizar, sendo uma evidente dificuldade a da maior parte desses volumes estarem escritos em latim e, em alguns casos, em hebreu.

No que se refere à magia, pode identificar-se a presença na biblioteca de Mafra de volumes tais como:

-“De Occulta Philosophia” de Cornélio Agrippa;
- “Magia Naturalis, sive miraculis rerum naturalium” de Giambattista della Porta;
- “Bibliotheca Universalis” de Conrado Gesner;
- “Utiusque cosmi Maioris scilicet et Minoris Metaphysica, Physica atque Technica Historia” de Robert Fludd;
- “Kabbala Denudata”, de Christian Knorr von Rosenroth.

Curiosamente, um dos livros que integram a biblioteca esotérica de Fernando Pessoa é, exactamente, a tradução para inglês da obra de von Rosenroth, realizada por Samuel Liddel MacGregor Mathers, um dos fundadores da Golden Dawn, volume ao qual o poeta dedicou muita atenção, denotada pela multiplicidade de anotações e sublinhados que ali deixou.

Ora, a investigação que temos actualmente em curso, também em termos históricos, versa exactamente sobre o interesse dedicado por Fernando Pessoa à Alta Magia e, em particular, à relação que estabeleceu com o Mago e esoterista inglês Aleister Crowley.

O objecto mais alargado dessa investigação é a História do Esoterismo em Portugal e, neste vector em particular, temos como objecto do nosso estudo a relevância da Alta Magia no panorama português do início do século XX, onde dispomos como base de trabalho da comprovada relação estabelecida entre o referido Mago inglês e o nosso poeta Fernando Pessoa.

Não poderemos alongar-nos sobre os pormenores de tal relação, os quais, aliás, se encontram profusamente documentados em obras de Victor Belém e de Miguel Roza .

Bastará sumariar que os contactos entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley se tornaram públicos quando a 27 de Setembro de 1930 - um Sábado - o Diário de Notícias publica a primeira notícia onde se coloca a hipótese de Aleister Crowley se ter suicidado na Boca do Inferno, em Cascais

Sabemos hoje que tudo não passou de uma encenação, orquestrada pelo próprio Crowley, desenhada, com um forte sentido novelesco, por Pessoa e protagonizada por um amigo do poeta, o jornalista Augusto Ferreira Gomes, que pretensamente se teria deslocado a Cascais, a 26 de Setembro de 1930, com o intuito de entrevistar Aleister Crowley.

O jornalista ter-se-ia dirigido à Boca do Inferno, sem explicação racional, onde, no grande corte na rocha que se encontra ao lado esquerdo daquele acidente natural, teria encontrando uma cigarreira e, sob aquela, uma carta.

A cigarreira, que se sabe hoje ter pertencido a Fernando Pessoa, ostenta em ambas as faces símbolos egípcios. A carta, redigida em papel timbrado do “Hotel de l’Éurope”, de Lisboa, está colocada num envelope, este com o timbre do Hotel Astoria, de Coimbra, encontrando-se endereçado a Miss Hanni L. Jaeger, à data a “mulher escarlate” de Crowley, com nota para lhe ser entregue, rezando o seguinte:

“ Ano 14, Sol em Balança
L.G.P.
Não posso viver sem ti. A outra Boca do Infierno apanhar-me-á – não será tão quente como a tua.
Hisos!
TU
LI
YU


A interpretação da carta de suicídio e a identificação da data sua ocorrência não exige, sequer, esforço de investigação, pois foi o próprio Fernando Pessoa quem se encarregou de nos esclarecer tais mistérios, tanto em notas pessoais, como no artigo publicado no “Notícias Ilustrado” de 5 de Outubro de 1930:

- Ano 14 corresponde a 1930, na cronologia especial adoptada por Crowley;
- L.G.P. é o nome místico de Hanni Larissa Jaeger;
- Hisos será uma palavra misteriosa de código, apenas conhecida por Crowley e Hanni Jaeger;
- Tu Li Yu, segundo o próprio Crowley teria explicado a Pessoa, foi um sábio Chinês, que viveu três mil anos antes de Cristo, de quem o Mago inglês seria a actual reincarnação;
- Sol em Balança, que Pessoa sublinha ser o ponto importante da carta, refere-se às 18 horas e 36 minutos do dia 23 de Setembro – o Equinócio de Outono.

Claro está que o texto da carta, em si próprio considerado, indicia o suicídio de Crowley na Boca do Inferno, com toda a aparência de tal drástico acto ter sido motivado por razões amorosas: a recente e inopinada partida de Portugal de Miss Jaeger.

Sabemos actualmente, através da citada obra de Miguel Roza, que o objectivo final de Fernando Pessoa era o de editar uma “novela policiária” denominada “A Boca do Inferno”, cujo autoria seria atribuída a um detective de nacionalidade inglesa.

No entanto, a verdade é que a história da relação entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley se iniciou quase um ano antes do episódio que acabamos de referir, com uma carta dirigida por Pessoa à “The Mandrake Press”, datada de 18 de Novembro de 1929, cujo objectivo expresso era o de encomendar a autobiografia – dita “autohagiografia” – “The confessions of Aleister Crowley”.

Fernando Pessoa mostra-se igualmente interessado por “The Stratagem”, um pequeno volume contendo três histórias escritas por Crowley, esclarecendo que tem na sua biblioteca uma outra obra do Mago, o “Liber 777”, que adianta ter adquirido sem conhecer a identidade do seu autor.

Em resposta à sua carta, Pessoa recebe uma carta da editora de 22 de Novembro de 1929, informando do envio, em separado, do primeiro volume das “Confessions…” – o poeta receberá ainda, posteriormente, o segundo e último volume publicado, à época, da “autohagiografia” de Crowley – e do volume de “The Stratagem”.

De seguida, o passo fulcral: Pessoa dirige nova carta à editora, datada de 4 de Dezembro de 1929, onde entre outros assuntos arrisca lançar a ponte para o contacto com Crowley:
“Se tiverem, como provavelmente têm, oportunidade de comunicar com o Sr. Aleister Crowley, talvez possam informá-lo de que o seu horóscopo não está correcto e que, se ele admite que nasceu às 23h.6m.39s de 12 de Outubro de 1875, terá Carneiro 11 no seu meio-céu, com o correspondente ascendente e cúspides. Encontrará então as suas direcções mais exactas do que provavelmente as encontrou até agora. Isto é mera especulação, claro, e peço desculpa de vos maçar com esta intromissão puramente fantasista no que é, afinal de contas, apenas uma carta comercial.”.

Por carta de 9 de Dezembro de 1929, a “The Mandrake Press” não só comunica o envio, por correio separado, do segundo volume das “Confessions ...”, como informa que a carta anterior de Pessoa foi passada a Crowley, que lhe responderá directamente, o que ocorre efectivamente, numa primeira carta datada de 11 de Dezembro de 1929, na qual Crowley tece alguns comentários às anotações sobre astrologia que o português lhe tinha remetido, embora anotando que fazia “... muito pouca astrologia, excepto simples natividades e trânsitos”.

Não será, porventura, esse o principal motivo de interesse desta carta.

Ao contrário de Miguel Roza, não nos impressiona que Crowley use na carta, respectivamente no início e no final da mesma, a expressões “Do what thou wilt shall be the whole of the law” e “Love is the law, love under will”, que correspondem à síntese final do “Liber Al vel Legis”, o “Livro da Lei”, ditado (inspirado ?) a Crowley pela entidade Aiwass no Cairo, em Março de 1904, que para o esoterista e seus seguidores corresponde ao advento do Éon de Horus, a nova Idade de que Crowley pretende ser Santo e Profeta.

Provavelmente, estranho seria a ausência na carta de tais expressões.

Também nos parece significativo que Crowley trate, desde logo, Pessoa por “Care Frate” (Caro Irmão) e que assine, sem qualquer hesitação (em grego, pelo seu punho) “O Grande Thérion 666”.

Acresce que Pessoa, logo desde a carta de 6 de Janeiro de 1930, se dirige a Crowley como “Carissime Frater” (Caríssimo Irmão).

Estranha e a merecer investigação aprofundada é referência de Crowley a “the Message”. Pelo seu punho, como post scriptum, o Mago escreve a 22 de Dezembro de 1929 que considerou a recepção das poesias de Pessoa como uma verdadeira Mensagem, “...que gostaria de explicar pessoalmente” e, na carta 14 de Janeiro de 1930 sublinha que “O nosso encontro aí elucidaria alguns pontos confusos no meu pensamento acerca da Mensagem”.

De facto, os dois homens manifestam reciprocamente, logo numa fase inicial do seu contacto epistolar, a vontade de se encontrarem, parecendo certo que houve intenção de fazer coincidir tal encontro com um equinócio, bem como que a localização do mesmo em Portugal acaba por decorrer da posição de Pessoa, que não teria possibilidade de custear a sua própria deslocação ao estrangeiro.

Esta correspondência mantêm-se durante 1930, antes e depois da vinda de Crowley a Portugal, a qual culmina com a encenação da Boca do Inferno, verificando-se posteriormente uma diluição de contactos, pois se bem que sejam conhecidas cartas datadas de 1931 e 1932, a verdade é que parece haver mais insistência de Crowley que disponibilidade de Pessoa, o qual, aliás, responde pela última vez ao Mago em Outubro de 1931.

Sendo evidente a motivação esotérica destes contactos, não deixa de ser curioso que ambos patenteiem igualmente o seu interesse em obter resultados económicos através de publicações a realizar, directa ou indirectamente, em parceria, o que nos conduz a admitir que uma das razões para a diminuição de interesse nestes contactos por parte de Fernando Pessoa seja o facto de, por um lado, se ter tornado evidente que não lograria, por esta via, publicar as suas obras e, por outro lado, por ter constatado que Crowley insistentemente lhe solicitava a angariação de verbas para determinados projectos e, diríamos nós, para a actividade das suas organizações.

As dificuldades económicas e os estratagemas para as ultrapassar são, a partir de dada altura, uma constante da vida de Aleister Crowley.

No âmbito da nossa investigação decidimos procurar obter novos dados acerca da relação entre Crowley e Pessoa, com base na biblioteca do poeta.

Delineámos um programa de trabalhos centrado na identificação da bibliografia esotérica detida pelo poeta, no âmbito da qual o objecto de estudo principal seriam obras de Aleister Crowley, nomeadamente para se procurar determinar o grau de interesse dispensado pelo poeta a tais obras, através dos sublinhados e anotações apostos nas mesmas.

Iniciámos estes trabalhos em Outubro de 2003, tendo-se concluído a análise dos livros de Crowley em Fevereiro de 2004. A investigação prossegue, entretanto, relativamente a outros livros, de temática esotérica, integrados naquela biblioteca.

De forma necessariamente sumária, apurámos que Fernando Pessoa possuiu as seguintes obras de Aleister Crowley:
- “The confessions of Aleister Crowley”, Volume I e Volume II, Mandrake Press, London, 1929;
- “Liber 777”, The Walter Scott Publishing Co., Ltd., London, 1909;
- The Master Therion, “Magick in theory and practice (being part III of book 4)”, Lecram Press, 26 Rue d’H… (?), Paris, sem data.

As “Confessions …”, conforme se indicou já, são a autobiografia de Crowley, do seu nascimento, a 12 de Outubro de 1875, até cerca de 1923, no amargo rescaldo do falhanço da experiência da Abadia de Thelema, na Sicília.

O livro divide-se em seis volumes, dos quais Pessoa apenas possuiu os dois primeiros - os únicos editados em 1929 e durante a vida de Crowley - os quais referem apenas, no que diz respeito ao trajecto esotérico do autor, a fase correspondente ao seu percurso até à adesão à “Golden Dawn” e às peripécias da cisão desta, da qual resultou, entre outras, a organização dirigida pelo Mago, que para simplificar referiremos como “Astrum Argenteum”.

Esses dois volumes contêm, ainda, extensa descrição das viagens de Crowley pelo mundo e as suas múltiplas aventuras de alpinista, terminando antes do “Advento do Aeon de Hórus”.

As notas de Fernando Pessoa nestes dois volumes são muitas, podendo agrupar-se, temática e quantitativamente da seguinte forma:
- Referências a aspectos concretos da vida de Crowley ou à sua personalidade: 11
- Magia, Cabala, ocultismo e iniciação: 11
- Sociedade, incluindo a condição feminina: 8
- Política e cidadania: 5
- Filosofia, religião e espiritualidade: 3
- História: 2
- Poesia: 1
- Astrologia: 1

Convirá anotar ainda alguns aspectos especialmente relevantes, decorrentes da análise desses apontamentos e sublinhados.

Na página 229 do primeiro volume, Crowley refere a sua leitura da “The Kabbalah Unveiled”, na tradução de Mathers que acima referimos, a propósito do que Pessoa nada anota ou aponta, se bem que esse livro faça parte (ou tenha vindo a fazer, posteriormente) da sua biblioteca, e tenha merecido por parte do poeta leitura particularmente atenta.

Em boa parte, a ausência de anotações em vários capítulos do segundo volume, relaciona-se com o facto de conterem essencialmente a descrição de viagens e expedições realizadas por Crowley.

Há, de toda a forma, nesse mesmo volume múltiplas referências à actividade esotérica e mágica, nomeadamente à “Golden Dawn”, que não mereceram qualquer anotação por parte de Fernando Pessoa.

É, ainda, de registar que na página 305 do segundo volume Crowley refere-se expressamente ao “... my 777...”, ou seja o seu “Liber 777”, livro que Pessoa afirmou já possuir quando teve conhecimento das “Confessions ...”, sem que no entanto aquela referência tenha merecido qualquer anotação ou apontamento por parte do poeta.

O “Liber 777” trata-se de um dicionário de correspondências de elementos mágicos, que Crowley pretendia constituir para o ocultismo o que “... Webster or Murray is to English language.” .

Neste volume Pessoa nada anotou de relevante, com excepção de um curto sublinhado no texto introdutório, onde Crowley sustenta que aprendeu a não usar os pontos de vista do céptico e do místico segundo a mútua tolerância dos sub-contrários, mas sim através afirmação dos contrários, o que, em seu entender, implica uma transcendência das leis do intelecto, que corresponde à loucura no homem comum e à genialidade no super-homem.

Muito embora, como se assinalou, o livro não identifique Crowley como seu autor, o facto é que contém de forma absolutamente clara a indicação de se tratar de uma edição da A A (isto é, da “Astrum Argenteum”, como se disse já uma organização esotérica liderada pelo Mago), a qual é ali definida como “... um conjunto de pessoas que conseguiram atingir a condição que tem sido várias vezes descrita como... “ a de “santos”, “mahatmas”, “mestres”, “adeptos” “... e assim por diante, consoante os acidentes de tempo e de lugar.”.

O “Magick ...” é, efectivamente, um manual de magia, contendo pormenorizadamente elementos sobre a sua teoria e prática.

Fernando Pessoa não colocou neste volume qualquer anotação ou sublinhado, o que nos leva a colocar a hipótese, desde logo por comparação com os outros livros da sua biblioteca que analisámos, de que o poeta nem sequer o tenha lido.

A explicação para tal facto pode decorrer deste volume integrar um poema de Crowley, o “Hymn to Pan”, que se sabe ter sido traduzido para português por Pessoa, com o título de “Hino a Pã” e publicado na revista “Presença” nº 33, Julho-Outubro de 1931 , podendo assim admitir-se que o poeta apenas tenha utilizado este volume para esse propósito específico.

Que conclusões provisórias podemos avançar, no actual estado da nossa investigação:

- As anotações e apontamentos constantes dos livros de Aleister Crowley existentes na biblioteca de Fernando Pessoa parecem ter sido apostas, ao menos na sua esmagadora maioria, pelo próprio poeta, o que se alcança por comparação com as notas existentes noutras obras incluídas na mesma biblioteca e, indirectamente, pela coerência dos assuntos relevados com o conhecemos, com base noutras fontes, acerca da vida e interesses do poeta;
- O interesse dedicado aos dois volumes das “Confessions ... “ é coerente com o que se apurou, através de outras fontes, relativamente à relação estabelecida entre Pessoa e Crowley;
- As anotações relativas a assuntos esotéricos, identificadas naqueles volumes, denotam o interesse de Pessoa pela Astrologia – bem conhecido e documentado -, mas também a sua dedicação à Cabala e à Magia, sentido este igualmente indiciado por outros volumes da sua biblioteca, que estamos actualmente a estudar;
- A quase ausência de anotações no “Liber 777” implica que coloquemos a questão de saber se Pessoa se terá chegado a dedicar à Magia em termos práticos o que, mais por instinto que por conhecimento, duvidamos ter ocorrido;
- A ausência de anotações no “Magick ...” , conforme assinalámos, leva-nos a pensar que o volume terá sido exclusivamente utilizado por Pessoa como base de trabalho para a tradução do “Hymn to Pan”.

Como se disse, pretendemos dar sequência a esta nossa investigação, através da análise de outros volumes acerca de temas esotéricos existentes na biblioteca de Pessoa, tendo em vista obter pontos de referência para melhor compreender o que evidenciamos nos livros de Crowley, mas também para procurarmos conhecer melhor o interesse do poeta acerca de determinados âmbitos do esoterismo.

Não nos sendo possível alongarmo-nos, aqui, acerca do assunto, valerá a pena sublinhar que se sabe actualmente, sem margem para dúvidas, que Fernando Pessoa se dedicou à astrologia, em termos teóricos e práticos, bem como que manifestou apreço pela maçonaria – indicando não lhe ter pertencido – e tendo chegado a apresentar-se como “cristão gnóstico” e membro da “aparentemente extinta Ordem Templária de Portugal”.

Pessoa interessou-se, igualmente, pelo espiritismo e pela teosofia, entre outros assuntos, evidenciando as fontes que temos vindo a estudar a sua procura da Verdade Oculta através da Cabala e da Magia, via na qual, sem dúvida, encontrou em Crowley um companheiro de percurso.

O problema é que a personalidade, a vivência e os meios sociais em que ambos os homens se inseriam são tão dispares, que provavelmente a relação entre ambos estaria sempre, fossem quais fossem as circunstâncias, votado ao fracasso.

É seguro que Pessoa iniciou um trajecto de busca pessoal através da filosofia, que o conduzia ao neo-paganismo e, por fim, a um esoterismo que arriscamos qualificar como judaico-cristão.

Vale a pena remeter os interessados para a admirável síntese de Richard Zenith, constante de “Fernando Pessoa – Escritos autobiográficos, automáticos e de reflexão pessoal” , que refere o poeta como “o esotérico ambíguo”.

4- Notas finais

Mais do que o espanto ou o assombro dos rituais e actos mágicos, pensamos que a investigação acerca da magia, em termos históricos e actuais, revela o Homem na sua essência mais profunda: um ente caracterizado por um sentido de espiritualidade que não se basta com as cosmogonias e com as regras morais ensinadas pelas religiões, antes anseia por aceder a um poder que lhe permita mudar o seu destino e, em última instância, na mais pura lógica prometeica, torna-se ele próprio Deus.